O que os adolescentes querem (ou precisam) na educação

Sempre ouvimos falar em ‘professores X alunos’, sempre em lados opostos da mesa, nunca vemos ‘professor e aluno’. Bom, isso se dá parte por uma falha na comunicação, no entendimento das necessidades mútuas. Falando com a psicóloga, mestra em educação, Patricia Neumann, conseguimos traduzir um pouco do que passa na cabeça dos adolescentes e o que eles buscam atualmente, além de como a escola pode lidar com isso.

Segundo Neumann, a cobrança é um fator crucial. Nossa sociedade tem determinados valores que são propagados o tempo todo de forma direta e indireta. Em termos de educação formal, um dos mais elevados valores tem sido a produção e a competitividade.

E desde cedo cobra-se muito mais quantidade do que qualidade.  “Vale mais as notas que o aprendizado para a vida. Esta pressão em que tudo depende das notas faz com que os adolescentes não vejam a educação como a própria vida, mas a educação como algum tipo de preparação para o trabalho, principalmente”, diz Neumann.

E ao iniciar um curso superior, as notas voltam a preocupar. A desistência – principalmente nos primeiros anos – não é causada apenas pela imaturidade do jovem que adentra o ensino superior, mas este é um dos fatores. “E por que nossos jovens precisam entrar tão cedo na universidade? Bem, ele precisa (para nossa sociedade) começar a produzir logo e se possível, antes dos outros. Assim, um dos desafios dos adolescentes hoje é se construir como pessoa em que os valores que baseiam o modo de vida social não favorecem ao amadurecimento intelectual e emocional”, explica Patricia.

A psicóloga ressalta que a competitividade exagerada desfavorece valores como solidariedade e sensibilidade por si mesmo e pelos outros e, em consequência, o aumento do nível de ansiedade. E ainda, quando o jovem não consegue atender as expectativas sociais e familiares, corre o risco de desenvolver algum tipo de transtorno. Não é à toa que as doenças do nosso século são transtornos de humor como depressão e os transtornos de ansiedade como a síndrome do pânico e o transtorno obsessivo-compulsivo.

Na escola

Existem muitos desafios para que a equipe pedagógica consiga trabalhar em harmonia com o aluno. Neumann pontua um dos mais importantes, que é lidar com a fase do desenvolvimento. “Refiro-me aos aspectos da personalidade do jovem que está em plena transformação durante a adolescência. Tanto física quanto psicologicamente estão a ocorrer muitas mudanças e o próprio adolescente enfrenta dificuldades em administrar o que ocorre consigo mesmo. Cada um terá a sua forma de lidar com as mudanças”, explica.

E por mais que os tempos mudem, algumas ações são esperadas na adolescência, como a busca pela identidade, a necessidade de autoafirmação e de pares (amigos) fora da família, o questionamento da existência adulta e a negação dos valores adultos em busca do algo diferente.

E qual é a melhor forma dos adolescentes aprenderem? Patricia responde: “É pela oposição ao que está pronto. Quando o adolescente se opõe a uma ideia, isso dá possibilidade para ele identificar as diferenças, os sentimentos, os próprios valores e os dos outros em busca das respostas aos questionamentos, principalmente da vida adulta. Porém, opor-se ao que está dado é altamente criticado e punido em nossa sociedade. Somos levados a concordar com o que está feito e quando questionamos, somos geralmente vistos como alguém que ameaça a ordem vigente. Assim fica difícil, inclusive para a equipe pedagógica. Isto porque a equipe pedagógica é responsável por mediar as relações entre os estudantes e entre os professores”.

Isto é um desafio imenso, pois nem todos os professores conseguem lidar facilmente com as características próprias do desenvolvimento dos adolescentes e isto pode gerar muitos conflitos em sala de aula. Eis que a equipe pedagógica está lá para tentar resolver e nem sempre ela tem condições para dar conta de tudo sozinha sem apoio de outros profissionais.

Escola educa?

A escola é uma profunda vivência educacional para quem passa por ela, pois é um espaço que se transmitem e consolidam crenças e valores sociais. A escola, em sociedades como a nossa, chega ao mesmo nível de valor que a família. Na escola existem basicamente dois tipos de aprendizagem ou processos de educar. Um deles é voltado para os conteúdos e para isso tem os métodos de ensino. Estes sim ora dão o resultado esperado, ora não dão. É um ensino que se pode ver de alguma forma e, inclusive, faz-se uma tentativa de medi-lo pelas avaliações e as notas. Digo tentativa porque defendo que não se pode medir conhecimento e aprendizagem por notas. O sistema de avaliações por notas se mostra falho por simples observações como a cola. Um estudante pode tirar 100 mediante trapaça ou pode ter tirado nota baixa porque ficou ansioso na hora na avaliação e esqueceu o conteúdo, mas depois ele sabe aplicar na vida o que viu na escola. O fato é que esta aprendizagem que se busca visualizar e quantificar é o que se julga que dá problema. É nela que pensamos quando alguém fala que o estudante vai mal ou bem. E estamos tão fixados neste tipo de aprendizagem que esquecemos outro tão importante quanto. Outro tipo de processo de ensino que ocorre nas escolas, e este ocorre o tempo todo, é um aprendizado por imitação de atitudes. Este ninguém se preocupa em medir ou quantificar. Nem mesmo pensam que existe. Os estudantes aprendem muita coisa mediante o contato com outras pessoas. Às vezes aprendem mais com as atitudes dos professores que pelo conteúdo das matérias. Um professor, por exemplo, ensina o tempo todo, não só pelo que fala nas aulas, mas pelo que faz. Mas falar sobre o porquê de existirem dificuldades de aprendizagem no primeiro processo que mencionei (o de conteúdos), isto precisaria de outra entrevista só com este tema (risos).

Jovens desmotivados

O conhecimento precisa ter um significado na vida da pessoa, por isso que a cópia de textos, exercícios mecânicos e provas decoradas não funcionam. Se não houver um sentido, simplesmente não tem valor algum.

A questão é que o conhecimento não tem um sentido por si mesmo, é preciso contextualizar. Este sentido surge a partir das vivências dos estudantes entre si e com seus professores. E a psicóloga Patricia retoma um ponto importante: professores ensinam também por suas atitudes, suas ações. “E atitudes têm por base pensamentos e sentimentos. Principalmente os sentimentos é algo comumente ignorado pela nossa educação como se eles não existissem. Seres humanos vão muito além de ter inteligência para compreender as coisas. Tudo o que se aprende na vida se constrói também pelos sentimentos expressos em atos, palavras e silêncio. É comum ouvirmos de estudantes que nem gostam tanto da matéria ‘x’, mas gostam do professor e assim a matéria fica menos maçante. O que nossa educação precisa mudar urgentemente é que o que vem em primeiro lugar são as pessoas e não os conteúdos. O que nossa sociedade faz é o contrário: enfatiza conteúdo e esquece as pessoas. O vestibular é um exemplo de ênfase no conteúdo. Estuda-se para passar no vestibular e não para viver a vida mais alegre e levemente. Isto toca na questão: ‘mas não temos que preparar nossos jovens para o mercado de trabalho?’ Onde há trabalho é preciso aprender a trabalhar. A questão está na forma como fazemos isto e quais consequências tem na vida dos jovens. O conhecimento é um bônus que se ganha a partir da relação entre pessoas e esta relação sendo significativa, o conhecimento que vem dela também o será. Dentre tantos fatores que influenciam na desmotivação à aprendizagem, o empobrecimento afetivo das relações é um deles. Este empobrecimento é revelado pela ênfase nas coisas em detrimento do ser humano que ali está a nossa frente”, afirma Neumann.