Cultura  

Perdemos a essência tradicionalista

A cidade de Guarapuava chegou a ostentar, há alguns anos, o título de “cidade mais gaúcha fora do Rio Grande do Sul”. Hoje, esse título não existe mais. O tradicionalismo gaúcho persiste nos CTGs existentes na cidade (são pelo menos três – 20 de setembro, Laço de Ouro e Fogo de Chão). Mas a cidade preserva, ainda, grandes nativistas gaúchos.

É o caso, por exemplo, do Newton Apolinário de Oliveira, que desde há muito tempo trabalha com artigos voltados para o campo. Em sua loja/ateliê, a Selaria e Sapataria Newton, é possível encontrar todos os “aperos” necessários para a lida do campo. Começa pelas botas, indispensáveis, passa pela sela do cavalo até as “ferragens” (freio e bucal), entre tantas coisas, inclusive vestimentas gaúchas.

Newton é o que ele mesmo diz, um tradicionalista. Não concorda, por exemplo, com a comemoração, pela cidade – conforme lei aprovada na Câmara de vereadores – do 20 de Setembro (Dia do Gaúcho). “Não somos gaúchos, somos tradicionalistas gaúchos”, diz ele. Da mesma maneira não concordou com outra lei, também aprovada pela Câmara, mas já derrubada, que estabelecia a “pilcha” gaúcha como vestimenta oficial da cidade.

Seu “ingresso” na atividade tradicionalista remonta já algumas décadas. Foi no século passado, por volta de 1996, que ao trabalhar com equipamentos gaúchos foi convidado e participou como conselheiro da 3.ª Região do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Foi esse trabalho que o levou a presidir dois CTGs, o Laço de Ouro e o Fogo de Chão.

Rodeios

Newton conta que Guarapuava foi a primeira cidade brasileira a ter um rodeio crioulo internacional. Começou durante a administração de Nivaldo Kruger (a partir de 1964) e continuou enquanto ele teve mandatos. “Prefeito ou deputado, Nivaldo sempre deu apoio ao Rodeio”, acentua Newton. Foi a partir do exemplo de Guarapuava que Vacaria, onde ainda se realiza um dos rodeios mais tradicionais da cultura gaúcha, se tornou também de âmbito internacional. Lá, porém, a grande atração é a gineteada (a doma de cavalos chucros), enquanto aqui sempre foi o tiro de laço. “Gineteada não é atrativa em Guarapuava”, diz Newton.

Nascido em Palmital (Centro Oeste do Paraná), Newton se considera um cidadão guarapuavano. São dele algumas críticas ao que se vive hoje no meio tradicionalista. Sobre os rodeios no Paraná fala que “são muito diferentes dos que fazíamos antigamente. Hoje tendem para o sertanejo, esquecendo o lado tradicionalista”. Os bailes nos CTGs também mudam muito. “Não se exige mais a pilcha gaúcha para entrar”, fala.

Consertos

Newton já teve experiência em rádio, apresentando programas com essência nativista. E vai retornar. Foi convidado pela rádio Cacique para apresentar um programa com esse foco. Será aos domingos de madrugada.

Na sua selaria ainda sobrevive um (antigo?) costume, o de consertar sapatos e botas, ou qualquer artigo de couro. A massificação desses produtos os torna tão baratos que, na maioria das vezes, é preferível jogar fora um sapato ou uma bota bastante utilizado ou estragado do que mandar consertá-los. Não é o caso do Newton. Ele ainda tem clientela suficiente para manter um sapateiro em plena atividade.