Longe demais das capitais

Não é difícil constatar que o futsal, como esporte de rendimento, é essencialmente interiorano. Se pensarmos nas maiores equipes da história do futsal nacional, até podemos lembrar-nos de importantes ‘clubes de camisa’, como Internacional (Porto Alegre) e Atlético-MG (Belo Horizonte), nas décadas passadas. No entanto, as grandes equipes do futsal nacional sempre estiveram no interior: a Inpacel (de Arapoti-PR), a Malwee (de Jaraguá-SC), a ACBF (de Carlos Barbosa-RS), o Atlântico (de Erechim-RS), a Krona (de Joinville-SC), a Intelli (de Orlândia-SP) e por aí vai…
Na Liga Futsal dá pra contar nos dedos às equipes que representam as capitais. As mais fortes e tradicionais, na atualidade, são Corinthians-SP e Minas Tênis Clubes-MG. Completam a galera de times de capitais o Floripa Futsal-SC e o Green Team, time de Brasília-DF, que fará sua primeira participação na competição nacional (o São Paulo FC há vários anos não joga na capital paulista, alternando sua sede entre diversas cidades do interior).
Em nível estadual, a ausência da capital é ainda mais perceptível. Neste ano, nas três divisões do Campeonato Paranaense de Futsal Adulto, nenhuma equipe de Curitiba está inscrita. O último clube da capital a disputar o estadual foi o Coritiba FC, na Chave Prata do ano passado.
Historicamente, os clubes de Curitiba nunca demonstraram muito interesse no estadual. O único título da capital veio em 1995, na primeira edição da Chave Ouro, com o Clube Curitibano. Nos últimos anos, a participação mais relevante, na elite do futsal paranaense, foi a do Paraná Clube, que chegou à fase semifinal em 2010. Dois anos depois, porém, a equipe foi rebaixada para a ‘Prata’ e abandonou o campeonato estadual masculino adulto.
O que explicaria este desinteresse das capitais pelo futsal? Uma explicação provável pode ser a pequena exposição do futsal em relação ao futebol. Com a grande força do principal esporte do país, fica difícil para os dirigentes das capitais encararem as outras modalidades como sendo profissionais. Os clubes ‘de camisa’, de uma forma ou outra, acabam focando todos os seus esforços apenas nas equipes de campo. Logicamente, existem outros fatores que contribuem para este quadro, mas a presença do futebol sempre deixou o futsal, como esporte de rendimento, às margens deste processo (mesmo que de forma involuntária).
Onde quero chegar com toda esta história? Vejamos o exemplo do Paraná: hoje temos uma federação praticamente isolada do resto do estado. É praticamente impossível para as equipes (que não possuem dirigentes dentro da FPFS) saber o que realmente acontece dentro das paredes da entidade. Às vezes a impressão que fica é que o futsal paranaense é um e a Federação é outra, tamanha a falta de sintonia que vem enfraquecendo o esporte nos últimos anos.
Em nível nacional o quadro não é muito diferente. A sede da CBFS fica na longínqua Fortaleza-CE, sendo que nenhuma equipe da região Nordeste participa da Liga Futsal, a principal competição do futsal brasileiro. A falta de contato e de transparência entre a entidade e o restante do ‘mundo do futsal’ só vem a contribuir para o aumento da insatisfação de muitos, hoje representada na revolta dos principais jogadores do país, fora da Seleção Brasileira.
O que poderia ser feito para reverter este quadro? Seria muito importante para o esporte em geral se as capitais entrassem ‘pra valer’ no espírito do futsal. Mas não sei se isso chegará, um dia, a acontecer. O fato é que, se chegarmos à conclusão que as capitais nunca terão o mesmo nível de interesse das cidades de interior, seria interessante pensar em alternativas para fortalecer ainda mais a modalidade longe dos grandes centros.
Uma alternativa, para o Paraná, seria a criação de escritórios da FPFS fora da capital. Ou quem sabe, até mesmo, considerar mudar a sede para o interior. Poderia se pensar nas cidades mais centrais, como Guarapuava, Ponta Grossa ou Cascavel, já que na região oeste, a representatividade da modalidade é muito boa. Seria uma forma de aproximar a direção do futsal paranaense com aqueles que realmente estão interessados no esporte: os clubes do interior.
Sei que esta ideia parece meio utópica, mas é uma questão que poderia ser discutida pelos clubes federados. Afinal a entidade existe para atender as necessidades dos clubes e não o contrário (ou pelo menos deveria ser assim). Como já expus neste texto, acho muito importante a participação das capitais nas competições, mas se não houver interesse, interiorizar o processo poderia ser uma forma de fortalecer um esporte que já carrega este DNA interiorano.
Vale a penas refletir…