Entre a dependência e a instabilidade, o diesel segue pressionando o transporte no Brasil

Nos últimos meses, acompanhei de perto como o comportamento do diesel voltou a expor uma fragilidade estrutural do Brasil. O aumento do ICMS no início de 2026 elevou a carga tributária, enquanto a instabilidade internacional, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, pressionou o preço do petróleo e encareceu a importação. Esse movimento chegou rapidamente às distribuidoras e passou a impactar diretamente o dia a dia das transportadoras. Mais uma vez, o setor se viu diante de um cenário sem previsibilidade.

Para quem vive o transporte, não há novidade nisso. É um padrão que se repete e que, na prática, nunca foi resolvido. Mesmo sendo um grande produtor de petróleo, o Brasil ainda depende da importação de diesel para atender sua demanda. Hoje, o país importa entre 25% e 30% do diesel consumido, o que nos mantém expostos a fatores que não controlamos, como conflitos geopolíticos, câmbio e decisões externas, enquanto tentamos operar com margens cada vez mais apertadas.

Na operação, o impacto é imediato e inevitável. O diesel representa cerca de 35% da estrutura de custos do transporte rodoviário de cargas. Qualquer oscilação chega direto ao frete. Não existe amortecimento. Esse efeito não fica restrito às transportadoras, ele se espalha pela cadeia logística e chega ao consumidor, pressionando preços e afetando a economia como um todo.

Outro ponto que chama atenção é o descompasso entre o aumento dos custos e a capacidade real de repasse. Na teoria, o ajuste é simples. Na prática, não é. Muitas empresas acabam absorvendo parte desse impacto para manter contratos e relações comerciais. Isso corrói margens, trava investimentos e compromete o planejamento. É um cenário que exige resistência constante.

Diante disso, voltam à pauta soluções emergenciais, como subsídios ou mecanismos de contenção de preços. Elas podem aliviar momentaneamente, mas não enfrentam o problema de fundo. O que existe é uma dependência estrutural combinada com uma capacidade de refino ainda limitada. Esse é o ponto central.

O que falta, na minha visão, é avançar com mais consistência naquilo que realmente traz estabilidade. Isso passa por política pública, mas também por maturidade de mercado. Precisamos de contratos mais bem estruturados, previsibilidade na recomposição de custos e um ambiente que permita decisões de médio e longo prazo.

O transporte rodoviário de cargas não é acessório. Ele sustenta o abastecimento do país. Quem está no setor sabe disso na prática, todos os dias. Por isso, não faz mais sentido tratar o diesel apenas como uma variável operacional. Hoje, ele é um fator estratégico para a competitividade do Brasil. E enquanto continuarmos dependentes de fatores externos, a instabilidade seguirá fazendo parte da rotina, com impacto direto na eficiência do setor e no custo do país.

Esse é um debate que precisa amadurecer. Não com soluções pontuais, mas com decisões estruturais que enfrentam o problema de forma definitiva. O setor não precisa de alívio momentâneo. Precisa de condições para operar com previsibilidade, investir com confiança e sustentar o crescimento no longo prazo.

Silvio Kasnodzei, presidente do SETCEPAR

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SETCEPAR Londrina

Fundado em 30 de julho de 2005, o SETCEPAR Londrina tem como missão apoiar o desenvolvimento do Transporte Rodoviário de Cargas. Oferece uma ampla variedade de serviços aos seus associados, como atendimentos via RNTRC, consultoria jurídica, recursos humanos (incluindo recrutamento, seleção, avaliação psicológica e divulgação de vagas), treinamentos voltados à capacitação de colaboradores e um clube de benefícios exclusivo.

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