Pesquisa revela paradoxo do desperdício de alimentos no Brasil: preocupação alta, ação baixa
Apenas 1% dos brasileiros acreditam que o desperdício de alimentos seja um dos principais problemas do país, mas 59,9% afirmam se preocupar muito com o assunto
Apenas 1% dos brasileiros acreditam que o desperdício de alimentos seja um dos principais problemas do país, mas 59,9% afirmam se preocupar muito com o assunto. Apesar disso, mais da metade da população (57,2%) se mostra “desengajada” do tema, índice que chega a 73,8% entre os idosos.
Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita sobre perda e desperdício de alimentos (PDA) elaborada para o programa Brasil Sem Desperdício, encomendada pelo WWF-Brasil e Wrap e realizada pelo Instituto Akatu e Market Analysis traçando um panorama detalhado dos hábitos, percepções e práticas da população brasileira. Realizado a partir de pesquisa online e grupos de discussão com mais de mil pessoas em todas as regiões do país, o levantamento mostra um cenário de contradições: embora o tema mobilize emocionalmente, ainda não é tratado como prioridade pública, nem prática cotidiana.
A pesquisa evidencia que “a dor comove, mas não move”. Se 47,7% dos brasileiros se sensibilizam ao relacionar desperdício à fome, apenas 6,2% se engajam diante de soluções práticas. O grande desafio é transformar empatia em ação concreta e engajar a sociedade de forma ampla para enfrentar um problema que envolve não apenas escolhas individuais, mas também cadeias produtivas, políticas públicas e empresas.
No levantamento fica evidente que o motor da consciência está ligado mais ao bolso do que à sustentabilidade: para 93,9% dos entrevistados, desperdiçar alimentos é sinônimo de perder dinheiro. Essa percepção mostra que, além da dimensão ética e ambiental, o combate ao desperdício é compreendido como valor econômico central.
Outro dado que chama atenção é a discrepância entre autoimagem e prática: 69,7% das pessoas ouvidas acreditam desperdiçar menos que familiares e amigos, e 67,9% afirmam não ter desperdiçado alimentos na última semana, ainda que números mostram descarte relevante em refeições e produtos estragados. A aparência dos alimentos também se confirma como barreira, já que menos da metade dos consumidores consome itens fora do padrão estético, reforçando preconceitos que resultam em perdas evitáveis.
Quem são os desperdiçadores?
Nas regiões Sudeste e Sul estão os consumidores que menos naturalizam o desperdício (mais de 62% com baixa naturalização). Nas demais regiões, a moderada naturalização se mantém equilibrada na faixa dos 30%, apontando para um grupo-chave que já reconhece o problema, mas ainda precisa ser mobilizado para rejeitá-lo de forma ativa.
A pesquisa segmentou ainda o comportamento dos brasileiros em perfis distintos. As personalidades analisadas incluem os Planejadores, que representam 55,2% da população e são movidos pela lógica da economia doméstica, respondendo bem a mensagens práticas e objetivas. O dado mostra que a grande maioria dos brasileiros são pragmáticos, racionais nas escolhas, calculam quantidades e demonstram forte controle sobre o consumo, evitando excessos.
Os demais entrevistados estão distribuídos entre Sustentáveis (17,1%), Engajados (8,8%), Camaleônicos (12,2%), Guardadores (3%) e Coletivos (3,8%).
Nas regiões Sudeste e Sul estão os consumidores que menos naturalizam o desperdício (mais de 62% com baixa naturalização). Nas demais regiões, a moderada naturalização se mantém equilibrada na faixa dos 30%, apontando para um grupo-chave que já reconhece o problema, mas ainda precisa ser mobilizado para rejeitá-lo de forma ativa.
Quem lidera o combate à perda e ao desperdício?
O levantamento mostra ainda que o governo é visto como o ator que deve liderar o enfrentamento do problema, seguido por supermercados, indústrias e consumidores. A percepção majoritária é de que a solução depende de articulação entre políticas públicas, práticas empresariais e escolhas individuais.
Para Daniela Teston, diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil, a jornada do desperdício atravessa todas as etapas da rotina alimentar, desde a compra até o descarte.
“Promoções e gatilhos emocionais, por exemplo, levam ao excesso de compras. No preparo e consumo, o problema está nas sobras recorrentes de arroz e feijão, que acabam no lixo. Já no armazenamento, a desorganização e a falta de informação compromete a durabilidade dos alimentos. E, por fim, o reaproveitamento não avança por falta de tempo, motivação ou repertório culinário”, explica a especialista.
Por outro lado, segundo ela, os resultados mostram mais paradoxos e contradições culturais. “Ao mesmo tempo em que a pesquisa qualitativa reforça que o desperdício é percebido como um ato moralmente condenável, relacionado à fome e à desigualdade social, ele se torna culturalmente naturalizado como parte da vida cotidiana”, completa.
Como engajar o Brasil na causa?
Entre as recomendações estratégicas, os realizadores destacam a necessidade de associar o combate ao desperdício à economia doméstica, ampliar a presença de vozes confiáveis nos canais populares, oferecer soluções práticas e de fácil aplicação, valorizar o protagonismo feminino na gestão alimentar e incentivar maior participação masculina. As campanhas, segundo o estudo, devem ser segmentadas por perfis e regiões, equilibrando apelo emocional, racional e institucional. Além disso, os brasileiros demonstram preferência por campanhas educativas, antes mesmo de medidas regulatórias, como leis ou obrigações de doação.
“O desperdício de alimentos é uma dor silenciosa que afeta a todos nós, pois fragiliza o meio ambiente, agrava desigualdades sociais e pesa no bolso das famílias. Esta pesquisa nos mostra que os brasileiros já sentem o impacto desse problema, mas ainda não transformaram essa consciência em prática”, avalia Lucio Vicente, diretor-geral do Instituto Akatu.
“O desafio agora é inspirar mudanças cotidianas, mostrando que cada gesto importa: planejar, armazenar, reaproveitar. Quando a sociedade, empresas e governo se unem, conseguimos transformar desperdício em oportunidade e construir um futuro mais justo, sustentável e responsável”, completa o executivo.
O levantamento foi realizado pelo Instituto Akatu e pela Market Analysis – a pedido do WWF-Brasil, ONG voltada à conservação socioambiental e da Wrap, ONG global de ação ambiental.
O resumo do estudo foi apresentado no lançamento do Programa Brasil Sem Desperdício, uma iniciativa liderada pelo WWF-Brasil, em parceria com a WRAP, que aconteceu no final do ano passado.
Sobre o Brasil sem Desperdício
A iniciativa “Brasil Sem Desperdício” nasce para promover a colaboração entre empresas, governos, organizações da sociedade civil e academia na prevenção e redução da perda e desperdício de alimentos no país, garantindo a sustentabilidade ambiental e um sistema produtivo alimentar brasileiro mais responsável e eficiente.
Saiba mais: brasilsemdesperdicio.org.br
Sobre o WWF-Brasil
O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 29 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática.
Sobre o Instituto Akatu
Criado em 2001, o Instituto Akatu é uma organização pioneira na reconfiguração da cultura de consumo como elo estruturante da sustentabilidade. Atua a partir do entendimento de que o consumo é a infraestrutura invisível que conecta produção, cultura e política e que transformá-lo é ativar a regeneração em larga escala e com impacto real. O Akatu atua nas três ilhas de transformação: produção, uso e descarte, trabalhando com cadeias críticas e mercados compradores para acelerar práticas, políticas e escolhas regenerativas.
Sua atuação integra educação, estratégia e articulação institucional, combinando inteligência de dados, engajamento multissetorial e comunicação baseada em evidências. Assim, transforma o consumo em vetor de desenvolvimento sustentável, capaz de alinhar prosperidade econômica, bem-estar social e equilíbrio ambiental.
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Sobre a WRAP
A WRAP é uma ONG global de ação ambiental que catalisa formuladores de políticas, empresas e indivíduos para transformar os sistemas que criam os nossos alimentos, têxteis e produtos manufaturados. Juntos, eles são responsáveis por quase 50% das emissões globais de gases de efeito estufa.
