Fim da escala 6×1: como a mudança pode impactar Guarapuava

Mudança pode devolver tempo a milhares de trabalhadores e obrigar comércio e serviços a reorganizar jornadas sem redução salarial

Trabalhar seis dias para descansar apenas um ainda faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Em Guarapuava, a realidade está presente principalmente no comércio e no setor de serviços, entre vendedores, caixas, atendentes, garçons, cozinheiros, trabalhadores de supermercados, farmácias e outros estabelecimentos que mantêm as portas abertas durante praticamente toda a semana. A aprovação do fim da escala 6×1 pelo Senado coloca essa rotina perto de uma mudança histórica.

A proposta estabelece dois dias de descanso remunerado por semana e reduz gradualmente a jornada máxima das atuais 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. Mais do que uma alteração no número de horas trabalhadas, a medida pode representar uma mudança na relação de milhares de pessoas com o próprio tempo.

Em Guarapuava, o impacto tende a ser significativo. Dados reunidos pelo Observatório Econômico da Unicentro mostram que, das 26.515 empresas classificadas por atividade econômica no município, 14.142 pertencem ao setor de serviços e outras 7.081 ao comércio. Juntos, os dois segmentos representam aproximadamente 80% das empresas locais e concentram justamente algumas das atividades em que jornadas distribuídas por seis dias são mais comuns.

Para quem trabalha nesse modelo, ganhar um segundo dia de descanso pode significar algo simples, mas muitas vezes difícil de encaixar na rotina atual: passar mais tempo com os filhos, estudar, praticar atividade física, marcar uma consulta médica, encontrar amigos ou simplesmente descansar.

A redução de 44 para 40 horas parece pequena quando observada apenas dentro de uma semana. Ao longo de um ano, porém, quatro horas semanais representam aproximadamente 208 horas a menos de trabalho. É o equivalente a mais de cinco semanas de jornadas de 40 horas devolvidas ao trabalhador ao longo de 12 meses.

A mudança não significa que lojas, supermercados ou restaurantes terão obrigatoriamente que fechar durante dois dias da semana. O estabelecimento poderá continuar funcionando de segunda a sábado ou até durante os sete dias, desde que organize suas equipes de maneira que cada trabalhador tenha garantidos os períodos de descanso previstos.

Na prática, uma loja da Rua XV de Novembro poderá manter as portas abertas no sábado, mas talvez precise distribuir melhor as folgas entre os funcionários. Um supermercado que funciona todos os dias poderá utilizar equipes diferentes ao longo da semana. Um restaurante poderá precisar reforçar o quadro nos dias de maior movimento.

É justamente essa reorganização que aparece entre as principais preocupações dos empresários. Em negócios menores, com poucos funcionários, garantir mais um dia de descanso pode exigir contratação ou alterações nos horários. A redução da jornada sem diminuição do salário também aumenta o valor proporcional da hora trabalhada.

O impacto, porém, não precisa ser analisado apenas como aumento de custo. A discussão sobre jornadas menores envolve também produtividade, afastamentos, rotatividade e saúde dos funcionários. Empresas que conseguem manter trabalhadores por mais tempo, reduzir faltas e diminuir o desgaste físico e emocional também podem economizar em processos constantes de contratação e treinamento.

A lógica é que um funcionário menos exausto pode produzir melhor durante o período em que está no trabalho.

Esse é um dos principais argumentos dos defensores da redução da jornada. Depois de seis dias consecutivos trabalhando, muitas vezes com deslocamentos antes e depois do expediente, um único dia de folga pode acabar dedicado às tarefas acumuladas durante a semana. Limpar a casa, resolver problemas, fazer compras e cumprir compromissos deixam pouco espaço para descanso propriamente dito.

Um segundo dia muda essa conta.

A alteração deve atingir principalmente trabalhadores que não tiveram acesso às mudanças de jornada que já ocorreram em outras partes do mercado. Profissionais de escritórios, repartições e algumas empresas administrativas trabalham há anos de segunda a sexta-feira. Para vendedores, caixas, garçons, atendentes e outras categorias, entretanto, trabalhar aos sábados e domingos continua fazendo parte da profissão.

No Brasil, o Ministério do Trabalho estima que aproximadamente 14,8 milhões de empregados com carteira assinada estejam especificamente na escala 6×1. Quando são considerados também trabalhadores formais e informais que cumprem mais de 40 horas semanais em outras configurações, levantamento do Dieese aponta que a redução da jornada pode alcançar 26,8 milhões de pessoas.

Não existe atualmente uma estatística pública que mostre exatamente quantos trabalhadores de Guarapuava estão na escala 6×1. O perfil da economia municipal, contudo, indica que a mudança poderá atingir uma parcela relevante da população ocupada.

Comércio e serviços, além de concentrarem aproximadamente oito em cada dez empresas classificadas por atividade econômica no município, respondem por mais de R$ 3,8 bilhões do Valor Adicionado Bruto local nos dados reunidos pelo Observatório Econômico da Unicentro.

Isso significa que a discussão sobre jornada de trabalho não ficará restrita ao Congresso Nacional. Ela deverá chegar às lojas do Centro, supermercados dos bairros, restaurantes, farmácias, hotéis e diferentes estabelecimentos espalhados pela cidade.

Também poderá chegar às oportunidades de emprego. Empresas que necessitam manter o atendimento durante períodos longos poderão descobrir que não conseguem preencher todos os horários utilizando a mesma quantidade de funcionários. Nesses casos, novas contratações podem se tornar uma das alternativas.

Se um estabelecimento utiliza seis trabalhadores para cobrir toda a semana e passa a precisar de um funcionário adicional para preencher as novas folgas, surge uma vaga. Repetido em centenas de empresas, esse movimento poderia contribuir para a abertura de postos de trabalho no município.

Não há garantia, entretanto, de que isso acontecerá em todos os casos. Algumas empresas poderão reduzir horários, reorganizar os funcionários que já possuem ou investir em automação. Cada setor deverá encontrar uma forma diferente de adaptação.

Hospitais, por exemplo, precisam continuar funcionando 24 horas por dia. Farmácias, hotéis, segurança, transporte e determinadas indústrias também não podem simplesmente interromper suas atividades porque a jornada individual foi reduzida. Nessas áreas, o desafio será distribuir melhor os trabalhadores entre diferentes turnos.

O mesmo vale para uma cidade como Guarapuava, que possui presença importante de atividades hospitalares, indústria de alimentos, papel e madeira, transporte e logística. O fim da 6×1 não representa o fim do trabalho aos sábados ou domingos. Representa, antes, a ideia de que uma mesma pessoa não precise trabalhar durante quase toda a semana para que essas atividades continuem funcionando.

O debate também toca em uma mudança mais ampla sobre o significado do trabalho. Durante décadas, avanços tecnológicos foram associados à promessa de que as máquinas permitiriam produzir mais utilizando menos tempo humano. A produtividade aumentou, processos foram automatizados e diferentes atividades passaram a ser realizadas em uma fração do tempo necessário no passado. A duração legal da semana de trabalho brasileira, entretanto, continua permitindo até 44 horas.

A última grande redução constitucional da jornada ocorreu em 1988, quando o limite caiu de 48 para 44 horas semanais. Quase quatro décadas depois, a discussão volta a colocar o tempo do trabalhador no centro das relações de trabalho.

A mudança não ocorrerá imediatamente. Depois da promulgação, haverá um período de adaptação. O limite cairá inicialmente para 42 horas semanais e, ao final da transição prevista, chegará às 40 horas. Empresas, trabalhadores e sindicatos terão esse período para reorganizar contratos e escalas.

Para o pequeno empresário guarapuavano, o período será importante para calcular custos e reorganizar equipes. Para quem atualmente passa seis dos sete dias da semana no trabalho, entretanto, a mudança pode ter um significado muito mais cotidiano.

Pode ser o sábado com os filhos. Pode ser a possibilidade de começar um curso. Pode ser uma tarde sem uniforme, balcão ou relógio de ponto. Pode ser simplesmente um dia em que não seja necessário escolher entre resolver as obrigações da vida e descansar.

Em uma cidade cuja economia depende fortemente do comércio e dos serviços, o fim da escala 6×1 exigirá adaptação. Haverá custos, mudanças de horários e dificuldades diferentes de empresa para empresa. Mas a discussão também coloca uma pergunta que por muito tempo ficou em segundo plano: quanto vale o tempo de quem trabalha?

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