Debate na Assembleia alerta para alta incidência de doenças renais e reforça importância do diagnóstico precoce

Médicos e representantes do setor apresentaram dados sobre crescimento dos casos, desafios de financiamento do SUS e caminhos para ampliar cuidados preventivos

A Assembleia Legislativa do Paraná realizou, nesta segunda-feira (09), uma audiência pública alusiva ao Dia Mundial do Rim, por iniciativa da deputada Cristina Silvestri (PP), com o objetivo de ampliar o debate sobre a prevenção das doenças renais e discutir políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce e ao tratamento dos pacientes no Paraná. O encontro reuniu médicos especialistas, representantes de entidades da área da saúde e profissionais que atuam no atendimento a pessoas com doenças renais.

Autora da iniciativa, a deputada Cristina Silvestri destacou que esta é a terceira audiência pública realizada na Assembleia sobre o tema, reforçando o compromisso de ampliar a conscientização da população. Segundo ela, a doença renal é silenciosa e muitas vezes só é descoberta quando já está em estágio avançado. “Como agentes políticos, temos a obrigação de discutir políticas públicas, promover informação e garantir tratamento adequado para as pessoas que dependem da saúde pública”, afirmou.

A parlamentar também ressaltou que o diálogo com entidades e especialistas tem gerado avanços. “Nesses três anos, tivemos conquistas importantes a partir das reivindicações apresentadas pelas associações e profissionais da área. Ao mesmo tempo, seguimos abertos a novas demandas, porque essa é uma luta contínua.”

Ela também anunciou conquistas ao longo dos três anos em que a Assembleia abraçou o pleito: redução de 50% na tarifa de água das clínicas; encaminhamento favorável para redução das tarifas de energia elétrica; e criação da frente parlamentar sobre o tema.

A parlamentar Secretária Marcia Huçulak (PSD) também participou da audiência. Ela comentou sobre os desafios. “Um deles é o modelo de atenção. O outro é o financiamento, que nasceu historicamente subfinanciado, com hiatos enormes. Juntamente com isso, temos que lidar com o envelhecimento da população e com a falta de promoção do nosso sistema, que funciona no método reativo em vez de proativo. São vários os desafios, e trazer esses debates para cá ajuda na reverberação”, destacou.

Diagnóstico

Durante o debate, o médico nefrologista Ricardo Akel, superintendente do Instituto do Rim do Paraná e presidente da Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante no Paraná, alertou para a grande incidência de problemas renais na população. Segundo ele, cerca de 1,2 milhão de paranaenses já apresentam algum estágio inicial de alteração na função dos rins, geralmente associada a doenças como diabetes, hipertensão arterial e obesidade. “A prevenção é sempre o melhor remédio. É preciso cuidar da função renal antes que a doença comprometa os rins e leve à necessidade de terapias como diálise ou transplante”, explicou. Ele também orientou que exames simples, como a dosagem de creatinina e o exame de urina, devem ser feitos periodicamente para detectar alterações precoces.

A médica nefrologista Maria Laura Neme, secretária da Sociedade Paranaense de Nefrologia, reforçou que a doença renal crônica já é considerada um problema de saúde pública mundial. Segundo ela, a enfermidade atinge, no mundo, cerca de 850 milhões de pessoas. “O grande desafio é que a doença renal geralmente não apresenta sintomas. Menos de 10% das pessoas descobrem o problema a tempo. Por isso, a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais”, destacou.

A especialista explicou que um exame simples e de baixo custo pode ajudar na identificação precoce da doença. “A dosagem da creatinina é um exame acessível, pago pelo SUS, e deve fazer parte do acompanhamento regular da população, especialmente de pessoas com diabetes ou hipertensão. Esse exame precisa estar disponível nos postos de saúde como forma de rastreamento”, disse.

Miguel Carlos Riella, presidente da Fundação Pró-Renal, afirmou que as instituições amplificam as ações do governo, trazendo reivindicações, alertando para os problemas e ajudando nas campanhas de conscientização.

René Santos Neto, presidente da Sociedade Paranaense de Nefrologia, trouxe mais alguns dados sobre os problemas renais. Segundo ele, a doença renal será a 5ª maior causa de morte no mundo até 2040 e hoje já consome 3% do orçamento da saúde por causa de terapias tardias.

“8.700 paranaenses dependem de diálise hoje no Estado, com 82% deles sendo atendidos pelo SUS. Isso só vai crescer com o envelhecimento da população, e precisamos estar preparados”, comentou. Hoje são 50 centros de diálise em 30 municípios no Paraná, com 14 centros transplantadores e 5.500 pessoas na fila esperando por um rim.

José Moura Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, participou por vídeo. “170 mil pacientes dependem da diálise para sobreviver. Sem isso, eles não sobrevivem. É um tratamento vital, contínuo e inadiável. Precisamos discutir o financiamento do tratamento, muito defasado na tabela do SUS e com clínicas sobrecarregadas.”

Apesar das dificuldades, o sistema de atendimento público no Paraná foi elogiado. “O Paraná tem um dos melhores sistemas de terapia renal substitutiva do Brasil, com clínicas bem estruturadas, profissionais qualificados e equipamentos modernos capazes de garantir qualidade de vida ao paciente e prepará-lo para um possível transplante”, complementou Ricardo Akel. No entanto, ele ressaltou que a defasagem da tabela do SUS, a falta de cofinanciamento dos estados e a necessidade de melhoria na atenção básica pelos municípios são pautas constantes.

Impactos econômicos

Paulo Fraxino, vice-presidente da Região Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia, trouxe dados sobre o impacto econômico da doença.

Ele apresentou diversos estudos que mostram que o atraso no diagnóstico, mesmo que por apenas um ano, aumenta em 40% o risco de o paciente atingir o grau 5, o mais grave; em 63% o risco de falência renal; e em 85% o risco de desenvolver doenças cardiovasculares graves. “Se não for procurado, o diagnóstico sempre será tardio. Somente com o uso de medicamentos fornecidos gratuitamente pelo SUS, quando o diagnóstico é precoce da doença até o estágio 3, conseguimos retardar em 10 a 15 anos a necessidade de diálise, o que representa uma economia muito grande, além de uma qualidade de vida inestimável ao paciente”, comentou.

De acordo com os dados apresentados, o custo do tratamento em diálise é de 50 a 70 vezes maior que o custo da prevenção. “Caso não modifiquemos o crescimento da doença com os medicamentos já disponíveis, até 2032 teremos 170% a mais de pacientes que necessitarão de diálise e 80% de aumento na necessidade de transplantes”, complementou.

Outros prejuízos econômicos foram apresentados pelo médico, como o absenteísmo (indicador que mede a ausência dos trabalhadores) e também aposentadorias precoces. Segundo as estimativas, o dano ao PIB brasileiro entre 2024 e 2034 pode chegar a R$ 1,3 trilhão, com 4,6 milhões de trabalhadores retirados do mercado de trabalho e perda de R$ 8,7 bilhões em arrecadação de impostos.

Participou também Ricardo Benvenutti, conselheiro e coordenador da Câmara Técnica de Nefrologia do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR)

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