Policial

Aumento de casos de suicídios entre jovens demonstram que algo está errado

Pesquisa científica mostra que o suicídio na década de 50 era visto como “ato tresloucado” ou “fraqueza de juízo”
["Na \u00faltima semana a jovem Amanda Rafaelly Andrade (17), de Guarapuava foi encontrada morta dentro da sua casa."," Em Quedas do Igua\u00e7u Dara Alves Rosa Veloso de 19 anos, cometeu ato extremo ",""] (Foto: Reprodução)

Nos primeiros meses do ano foram registrados diversos casos de pessoas que cometeram ato extremo contra a própria vida em Guarapuava e cidades da região. A comunidade artística e cultural guarapuavana ficou em estado de choque com o falecimento da jovem Amanda Rafaelly Andrade (17), encontrada morta no interior da sua casa no bairro Morro Alto. Amigos disseram que a jovem vinha lutando contra depressão. Ela que tinha uma vida ativa artisticamente, atuando como atriz no grupo de Teatro Felchak.  

    Em fevereiro o policial civil, Edenilson Soares Batista morreu após fazer um disparo de arma de fogo contra sua cabeça. Ele era lotado na 14ª Subdivisão Policial (SDP), em Guarapuava.

   Em Cantagalo a Polícia Militar foi acionada para atender um local de morte, onde o jovem Jocemar Petrechen teria cometido ato extremo contra a própria vida. 

   Na cidade de Laranjeiras do Sul, a vítima identificada como Tiago Alves, de 24 anos, acabou tirando a própria vida. Na última semana a notícia triste veio de Quedas do Iguaçu, onde a jovem, Dara Alves Rosa Veloso de 19 anos cometeu ato extremo dentro da sua casa. A cidade havia registrado um outro caso de suicídio no mês de abril, quando Paulo Rodrigues tirou a própria vida, no bairro Beira Rio.

    Outros dois casos de suicídios envolvendo jovens aconteceram em Rio Bonito do Iguaçu, com registro de morte, do jovem Iury Griebler Provin, que cometeu ato extremo e em Porto Barreiro, a jovem Luana Simeoni de 23 anos foi encontrada sem vida no interior de sua casa. Já em Nova Laranjeiras, numa comunidade rural, o idoso H.D.G. de 63 anos vinha fazendo tratamento médico contra a depressão, tomando remédios controlados, vindo a cometer ato extremo. 

NARRATIVAS

   A Doutora em história, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Kety Carla De March publicou em 2017 uma pesquisa científica com tema: “Hoje eu resolvi deixar o mundo”, que mostrou narrativas de suicídio em Guarapuava, na década de 1950. O artigo analisou inquéritos policiais sobre mortes consideradas pela polícia como suicídio. “Essas narrativas sobre a morte estavam permeadas de justificativas para o ato cometido, onde se adentrou ao espaço do que é chamado de ‘hierarquia da dor’, ou, aquilo que era considerado como motivo legítimo para uma ação entendida como extrema”, conta ela.

    Adentrando a análise dos inquéritos a historiadora dividiu as explicações encontradas pelas testemunhas nos inquéritos policiais a partir de elementos patológicos, principalmente a partir do uso de termos que designavam o suicídio como “ato tresloucado” ou “fraqueza de juízo”, ou pela não adequação do sujeito ao modelo normativo esperado para ele a partir de explicações que relacionavam o suicídio à perda de dinheiro em jogos, o amor não correspondido, a traição da esposa, um processo de desquite, a doença que não tem cura, a bebida, a falência. Entre as mulheres, também surgia a justificativa da perda da honra.

   Já nos casos em que as testemunhas narraram a não adequação do sujeito aos modelos normativos, contou com a participação de familiares como depoentes. Nesses inquéritos foi possível identificar as principais motivações apontadas pelas testemunhas para os suicídios. Entre os homens foram citados: amor não correspondido; embriagues; maus tratos e abandono familiar; brigas e abandono da esposa; ciúme; morte da companheira; boatos sobre impotência; problemas no trabalho; dívidas; perda de dinheiro em jogos e doenças. Entre as mulheres foram citados: defloramento; impossibilidade de anulação de casamento; viver com condição de amasiada; ter sido enganada pelo namorado; morte do companheiro e doenças.

  Os dados mostraram que a maioria dos suicidas eram homens que possuíam idades entre 20 a 30 anos. No grupo das mulheres, 85,7% das suicidas tinham menos de 25 anos de idade.

 Enquanto para as mulheres o suicídio teria vinculação direta a situações vivenciadas no âmbito privado, com especial enfoque para questões de honra e relações amorosas, para os homens, embora essas temáticas também fossem a tônica de alguns discursos, adentravam a esse espaço as explicações de foro público, como embriaguez, trabalho e finanças. 

   Kety Carla De March, atualmente é coordenadora de curso de especialização em Perspectivas de Ensino de História do Brasil ofertada pela UAB/Unicentro e professora colaboradora do Departamento de História da Unicentro/Campus Santa Cruz. 

REALIDADE ATUAL GUARAPUAVANA

  A central de jornalismo obteve com exclusividade dados do Centro de Atenção Psicossocial (CAPSII), de Guarapuava, que possui uma equipe de profissionais qualificados, que atende casos de saúde mental. Em 2018 foram registrados mais de 100 casos, onde as pessoas atentaram contra a própria vida, com a confirmação de seis óbitos, sendo que a maior incidência está entre os homens. De acordo com a psicóloga e coordenadora do CAPS, Carla Silveira Batista Lauer, em números mundiais a mortes de forma violenta acontece entre os homens, já nas ocorrências envolvendo mulheres, são pelo uso de venenos ou remédios. “Nós percebemos que em 2018 houveram casos de reincidência, que nos obrigou a criarmos um grupo de trabalho, de atenção e apoio a esses pacientes. Que faz um trabalho de grupo uma vez por semana”, explicou Carla.

   A psicóloga Carla alerta para os números de pessoas com transtorno mental e propícias ao suicídio em Guarapuava, onde somente pelo CAPSII estão entre quatro a seis mil pacientes atendidos. “Esses são números pelo CAPSII, mas ainda existem outras unidades de atendimento para dependentes químicos. Os números são alarmantes, infelizmente. Estamos com várias temáticas num trabalho em grupo para podermos atender essa população de uma maneira mais eficiente”, frisou.

TIPOS E SINTOMAS

 Um episódio depressivo pode ser categorizado como leve, moderado ou grave, a depender da intensidade dos sintomas. Um indivíduo com um episódio depressivo leve terá alguma dificuldade em continuar um trabalho simples e atividades sociais, mas sem grande prejuízo ao funcionamento global. Durante um episódio depressivo grave, é improvável que a pessoa afetada possa continuar com atividades sociais, de trabalho ou domésticas.

Uma distinção fundamental também é feita entre depressão em pessoas que têm ou não um histórico de episódios de mania. Ambos os tipos de depressão podem ser crônicos (isto é, acontecem durante um período prolongado de tempo), com recaídas, especialmente se não forem tratados. Transtorno depressivo recorrente: esse distúrbio envolve repetidos

episódios depressivos. Durante esses episódios, a pessoa experimenta um humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida, levando a uma diminuição das atividades em geral por pelo menos duas semanas. Muitas pessoas com depressão também sofrem com sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e de apetite e podem ter sentimento de culpa

ou baixa autoestima, falta de concentração e até mesmo aqueles que são clinicamente inexplicáveis. Transtorno afetivo bipolar: esse tipo de depressão consiste tipicamente na alternância entre episódios de mania e de depressão, separados por períodos

de humor normal. Episódios de mania envolvem humor exaltado ou irritado, excesso de atividades, pressão de fala, autoestima inflada e uma menor necessidade de sono, bem como a aceleração do pensamento.

Fatores que contribuem e prevenção

   A depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolver depressão. A depressão pode, por sua vez, levar a mais estresse e disfunção e piorar a situação de vida da pessoa afetada e o transtorno em

si. Há relação entre a depressão e a saúde física; doenças cardiovasculares, por exemplo, podem levar à depressão e vice e versa.

Diagnóstico e tratamento

Existem tratamentos eficazes para depressão moderada e grave.

Profissionais de saúde podem oferecer tratamentos psicológicos, como ativação comportamental, terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia interpessoal ou medicamentos antidepressivos. Os provedores de saúde devem ter em mente a possibilidade de efeitos adversos associados aos antidepressivos, a possibilidade de oferecer um outro tipo de intervenção (por disponibilidade de conhecimentos técnicos ou do tratamento em questão) e preferências individuais. Entre os diferentes tratamentos

psicológicos a serem considerados estão os individuais ou em grupo, realizados por profissionais ou terapeutas leigos supervisionados.

    Os tratamentos psicossociais também são efetivos para depressão leve. Os antidepressivos podem ser eficazes no caso de depressão moderada-grave, mas não são a primeira linha de tratamento para os casos mais brandos. Esses medicamentos não devem ser usados para tratar depressão em crianças e não são, também, a primeira linha de tratamento para adolescentes. É preciso utilizá-los com cautela. A Organização Mundial de Saúde (OMS), aponta que até 2020 a depressão será a principal doença mais incapacitante em todo o mundo. Estima que cerca de 400 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo, no Brasil são quase 10 milhões.