As chamas que iluminam o descaso com a educação no Paraná

O incêndio que atingiu o histórico Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha, em Paranaguá, não foi apenas uma tragédia isolada. Foi o sintoma visível de um problema muito mais profundo: o abandono sistemático do patrimônio público e da educação no Paraná.

Segundo relatos, o fogo ganhou força rapidamente, impulsionado pela própria estrutura de madeira do prédio – característica comum em edificações antigas e que exige manutenção rigorosa e constante. Não houve feridos, mas o impacto simbólico e histórico é incalculável: trata-se de um edifício tombado, parte da memória educacional e cultural do estado, consumido em poucas horas.

E é justamente aqui que começa o silêncio mais ensurdecedor.

Muito se falou sobre o incêndio – sobre as chamas, sobre a atuação dos bombeiros, sobre a comoção. Mas quase nada se disse sobre o que realmente importa: por que um prédio histórico, sob responsabilidade do poder público estadual, chegou a esse ponto de vulnerabilidade?

Manutenção não é detalhe. É política pública. Prédios históricos não queimam “do nada”. Eles queimam quando instalações elétricas não são revisadas, quando materiais inflamáveis não recebem tratamento adequado, quando planos de prevenção inexistem ou são ignorados. Eles queimam quando o cuidado falha.

E essa falha não é episódica. Ela dialoga diretamente com as prioridades do atual governo do Paraná.
Enquanto milhões de reais são direcionados para projetos questionáveis – como a privatização da gestão escolar e a militarização de colégios -, a estrutura básica da educação pública se deteriora. Falta valorização de professores e demais trabalhadores da educação, falta infraestrutura decente, falta manutenção predial. Sobra marketing.

O incêndio em Paranaguá escancara essa lógica perversa: há dinheiro, mas ele não está sendo aplicado onde deveria. Em vez de preservar escolas, o governo opta por redesenhar sua gestão para atender interesses de mercado e agendas ideológicas. O resultado é um sistema fragilizado – e, agora, literalmente em cinzas.

É impossível não fazer a pergunta incômoda: quanto custaria a manutenção preventiva que poderia ter evitado essa tragédia? Certamente, muito menos do que os milhões destinados a projetos que pouco dialogam com a melhoria real da educação.

O que se perdeu não foi apenas um prédio. Foi um pedaço da história do Paraná. Foi um espaço de formação, de memória, de identidade coletiva.

E, sobretudo, foi mais uma evidência de que o abandono também é uma escolha política.
Quando o Estado decide não cuidar, ele também decide destruir — ainda que lentamente, ainda que em silêncio — até que o fogo torne tudo visível.

Requião Filho é deputado estadual pelo PDT do Paraná.

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