Manchas no rosto que resistem a cremes colocam melasma no centro da dermatologia
Condição atinge mais de um terço das mulheres adultas, recidiva com a exposição solar e levou especialistas a rever os protocolos de tratamento
Uma mancha acastanhada que aparece devagar nas bochechas, na testa ou acima do lábio superior, escurece no verão e não cede aos cremes comprados por conta própria.
Essa é a experiência repetida de milhões de brasileiras que convivem com o melasma, um distúrbio de pigmentação concentrado nas áreas do rosto mais expostas à luz. A queixa é antiga nos consultórios, mas só nos últimos anos passou a ter respostas clínicas mais consistentes.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Sociedade Brasileira de Dermatologia estima que cerca de 35% das mulheres em idade fértil no país apresentem algum grau de melasma.
Um estudo transversal conduzido pela Universidade Estadual Paulista e publicado em 2024 nos Anais Brasileiros de Dermatologia encontrou prevalência de 36,3% entre mulheres adultas, com maior frequência em fototipos mais escuros e entre quem teve mais de uma gestação.
A mesma pesquisa registrou o melasma como o terceiro diagnóstico mais comum em mulheres atendidas em consultórios de dermatologia no Brasil.
Do ponto de vista clínico, o melasma é uma hipermelanose adquirida, ou seja, um acúmulo de pigmento que se instala em áreas fotoexpostas e costuma aparecer de forma simétrica nos dois lados do rosto.
O diagnóstico é feito principalmente pelo exame da pele, e o uso da lâmpada de Wood ajuda a identificar a profundidade do pigmento e até manchas que ainda não estão visíveis a olho nu. Esse detalhe importa porque a profundidade influencia diretamente a resposta ao tratamento.
Por trás da estatística há um peso que a foto do antes e depois não mostra. Levantamentos sobre qualidade de vida ligados à doença reúnem relatos de constrangimento, frustração e queda na autoestima, sobretudo porque as manchas ficam em evidência no rosto e resistem às tentativas de disfarce com maquiagem.
Para muitas pacientes, o desgaste emocional acompanha o tempo gasto em tratamentos que prometem rápido e entregam pouco.
Uma mancha que volta
O que torna a condição difícil de tratar não é apenas a mancha, mas o comportamento dela ao longo do tempo. O melasma é crônico e tende a reaparecer. Radiação ultravioleta, luz visível, calor, variações hormonais e predisposição genética atuam juntos, e nenhum fator isolado responde pelo quadro.
O estudo da Unesp observou que 49,1% das participantes tinham parentes de primeiro grau com manchas parecidas, número próximo do que o grupo de Hexsel já havia descrito no International Journal of Dermatology, com mais de 40% de histórico familiar entre os pacientes.
O clima brasileiro agrava o cenário. A incidência solar elevada na maior parte do território expõe a pele a uma radiação que estimula a produção de pigmento durante o ano inteiro, não apenas no verão.
Em peles de fototipos intermediários e altos, predominantes na população, essa resposta é mais intensa, o que explica parte da alta prevalência entre mulheres pardas e negras.
Esse perfil recidivante ajuda a entender por que tantas pacientes passam anos testando produtos sem resultado duradouro. Cremes clareadores usados sem orientação costumam aliviar de forma temporária e, em boa parte dos casos, a mancha retorna na primeira estação de sol mais forte.
A automedicação, inclusive, pode irritar a pele e piorar o quadro, ao gerar o chamado escurecimento pós-inflamatório.
O laser entra na discussão
A chegada dos lasers de pulso ultracurto mudou o debate clínico sobre pigmentação. Pesquisa publicada no periódico Dermatologic Surgery, citada em reportagem do jornal Estado de Minas, apontou o laser de picossegundos como uma das tecnologias mais eficazes no tratamento do melasma, em especial quando associado ao ácido tranexâmico oral.
A diferença em relação às gerações anteriores está na velocidade do pulso, medida em trilionésimos de segundo. Essa rapidez permite fragmentar o pigmento com baixa entrega de calor ao tecido ao redor, o que reduz o risco de irritação e do escurecimento pós-inflamatório, justamente o efeito indesejado que mais preocupa nas peles mais pigmentadas.
Os lasers mais antigos, que trabalhavam com mais calor, podiam piorar o melasma em vez de melhorá-lo, e por isso eram usados com cautela nesses casos.
A mesma tecnologia de pulso ultracurto é aplicada em outras frentes da dermatologia, como a remoção de tatuagens, a melhora de textura e o tratamento de poros e rugas finas, o que ampliou seu uso nas clínicas brasileiras.
“No melasma, porém, o cuidado é maior. O equilíbrio entre fragmentar o pigmento e não inflamar a pele exige parâmetros conservadores e preparo prévio, e é esse ajuste fino que separa um bom resultado de um efeito rebote”, afirma Dra. Mariana Cabral, médica dermatologista em Goiânia.
Ainda assim, dermatologistas reforçam que o laser é ferramenta, não promessa. O clareamento costuma ser gradual e depende de uma série de sessões, com manutenção ao longo do tempo.
Mesmo após boa resposta, fotoproteção rigorosa e rotina tópica continuam necessárias, porque o melasma responde ao ambiente e ao estilo de vida. Sessões isoladas, sem preparo da pele e sem acompanhamento, raramente sustentam o resultado.
A virada para o menos invasivo
O interesse por procedimentos que dispensam cortes acompanha um movimento mais amplo do mercado de estética. A procura por tratamentos estéticos sem cirurgia cresceu de forma consistente e colocou o Brasil em posição de destaque mundial.
Levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) referente a 2024 colocou o país em segundo lugar global em procedimentos não cirúrgicos, atrás apenas dos Estados Unidos.
No mundo, foram mais de 20 milhões dessas intervenções no ano, com aumento de 42,5% em quatro anos. Entre os não cirúrgicos realizados no Brasil, a toxina botulínica lidera, seguida pelo ácido hialurônico e por procedimentos de rejuvenescimento da pele com efeito lifting.
O movimento não se limita às mulheres. O relatório da ISAPS aponta crescimento mais acelerado da procura entre homens, ainda que elas respondam pela maior parte dos procedimentos.
Esse alargamento do público reforça uma mudança de comportamento: tratar a pele virou um cuidado contínuo, distribuído ao longo do ano, e não um esforço pontual antes de uma data específica.
A explicação para essa preferência aparece nas próprias motivações de quem procura as clínicas: resultado mais natural, menor tempo de recuperação e menos risco do que uma cirurgia.
Pesa também o custo, em geral mais acessível do que uma intervenção em centro cirúrgico, e a possibilidade de retomar a rotina logo depois do procedimento.
No caso das manchas, essa lógica se traduz em protocolos que combinam tecnologia, ativos tópicos e mudança de hábitos, em vez de uma intervenção isolada.
O que a avaliação médica define
Nada disso elimina a necessidade de avaliação individual. O tipo de melasma, o fototipo, a tolerância da pele e o histórico hormonal definem o que pode ou não ser indicado.
A gravidez, por exemplo, é contraindicação para o laser de pulso ultracurto, pela ausência de estudos de segurança para o feto, e quadros de acne ativa, feridas ou dermatites na área aumentam o risco de complicação.
Parâmetros mal ajustados podem agravar o melasma. Por isso, a orientação de especialistas é que o tratamento seja conduzido por um dermatologista, com preparo da pele antes das sessões e reavaliação a cada retorno.
Na hora de escolher onde tratar, formação verificável e experiência em pigmentação pesam mais do que o nome do equipamento usado na clínica.
Para quem convive com as manchas, a notícia melhor talvez não seja a existência de uma tecnologia específica, e sim a mudança de raciocínio.
O melasma deixou de ser tratado como algo que se resolve depressa e passou a ser encarado como condição crônica, que pede estratégia de longo prazo, constância e acompanhamento.
É uma expectativa mais realista sobre o que esperar da pele, e também a que tende a produzir um resultado capaz de se manter.

