Ainda me lembro daquele silêncio.
Era um silêncio diferente. Pesado, doméstico, quase íntimo demais para ser compartilhado. Foi o silêncio do meu pai, depois que revelei a decisão de assumir a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, em 2018.
Estava no auge do meu segundo mandato como prefeito de Apucarana. Tinha mais de 90% de aprovação. A luta da minha vida até ali.
Meu pai, Pedro Preto, ficou uma semana sem falar comigo. Uma semana inteira. Até que, num gesto que nunca vou esquecer, ele apareceu com uma caneta. Mesmo receoso, sinalizava que estava comigo. Aquela caneta assinaria minha posse.
Aceitei o desafio do governador Ratinho Junior movido por uma ideia que sempre me acompanhou: levar a saúde para perto das pessoas. Em Apucarana, eu dizia que a política deveria ser feita “do bairro para o centro”. No Estado, aquilo ganhou outra dimensão. Era do interior para a capital. Era do Paraná profundo para o Paraná inteiro.
Quando fui prefeito, durante seis anos, recebi apenas uma ambulância do Governo do Estado. Um veículo de emergência para 140 mil moradores. Aquilo nunca saiu da minha cabeça. Não como queixa, mas como referência. Como medida do quanto ainda havia por fazer.
Anos depois, à frente da Secretaria, entregamos mais de 8 mil veículos aos municípios. Ambulâncias, vans, unidades móveis. Promovemos a maior renovação de frotas da história do Paraná. O SAMU, que antes era restrito, passou a cobrir 100% do território. Mais do que logística, era a possibilidade de garantir que, onde houvesse um paranaense, haveria também uma chance.
Mas nenhum planejamento nos preparou para 2020.
A pandemia da covid-19 foi o maior teste da minha vida como médico e gestor. Tive Covid sete vezes. Sete. Em cada uma, havia não apenas o medo pessoal, mas a consciência de que aquilo estava acontecendo com milhares de outros paranaenses.
Eu vi pessoas próximas partirem. Como quase todo mundo viu. Vi famílias sendo interrompidas, histórias sendo encerradas cedo demais. E, nesses momentos, não existe cargo, não existe estrutura, não existe protocolo que impeça o peso humano daquilo tudo.
O que existe, no entanto, são escolhas.
E nós escolhemos a ciência. Escolhemos a vida.
Enquanto muitos estados eram marcados nas páginas policiais por escândalos, o Paraná se organizava, se estruturava e se apoiava em evidências. Não foi fácil. Tampouco simples. Mas foi firme. E, no meio do caos, conseguimos manter um caminho.
Terminada a fase mais aguda da pandemia, o desafio mudou de forma.
Havia uma fila represada. Pessoas esperando por cirurgias, por procedimentos, por um retorno à normalidade. Foi daí que nasceu o Opera Paraná. Hoje, ele é o maior programa de cirurgias eletivas do país. São cerca de 100 cirurgias por hora acontecendo no Estado. Cem histórias sendo retomadas a cada hora. Cem vidas voltando a andar, a enxergar, a respirar melhor.
E, ao passo em que o Estado se recuperava, pude focar naquilo que prometi a mim e ao meu pai: que a política pudesse alcançar todos os paranaenses.
Foram mais de mil obras. Hospitais, ambulatórios, unidades, reformas, ampliações. Projetos inéditos que se espalham por todo o Paraná.
Hoje, pela primeira vez na história, o Paraná tem a saúde pública mais bem avaliada do país.
E posso dizer, ao risco de parecer simples, o motivo de conquistarmos esse título. É porque, no fim das contas, essa história nunca foi sobre números. Nem sobre cargos. Nem sobre estatísticas, por mais importantes que elas sejam.
Sempre foi sobre gente.
Sobre a mãe que consegue atendimento mais rápido para o filho. Sobre o idoso que não precisa mais viajar horas por um exame. Sobre o profissional de saúde que encontra estrutura para fazer o seu trabalho com dignidade.
Sempre foi sobre encurtar distâncias.
Hoje, olhando para trás, sei que aquela decisão de 2018 mudou minha vida. Não foi a escolha mais fácil. Talvez tenha sido a mais difícil. Mas foi, sem dúvida, a mais necessária.
E, se meu pai ainda estivesse aqui para me ouvir, diria a ele duas coisas.
Primeiro, obrigado pela caneta.
Segundo, que deu certo.
Deu certo porque a saúde chegou mais perto.
Deu certo porque o Paraná avançou.
Deu certo porque, no fim, conseguimos fazer aquilo que sempre nos moveu: levar a saúde até a porta de cada paranaense.
Beto Preto, ex-secretário de Estado da Saúde do Paraná.

