Discutir sobre cidades inteligentes deixou de ser tendência e virou urgência

A discussão sobre cidades inteligentes deixou de ocupar o campo das tendências tecnológicas para assumir uma dimensão estratégica e urgente. O debate já não diz respeito apenas da incorporação de inovação digital à gestão pública, mas à própria capacidade das cidades responderem à pressões demográficas, climáticas, sociais e econômicas que se intensificam ano após ano. Ignorar essa situação significa, na prática, comprometer competitividade, sustentabilidade e qualidade de vida.

Os dados globais evidenciam essa urgência. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 55% da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, e a projeção é que esse percentual chegue a cerca de 68% até 2050. Desta forma, qualquer estratégia efetiva de desenvolvimento sustentável, mitigação climática ou crescimento econômico passa necessariamente pelo ambiente urbano. O debate sobre cidades inteligentes, portanto, não é apenas pontual, e sim um tema que está no centro das questões do século XXI.

No Brasil, o cenário é ainda mais claro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo Demográfico 2022, cerca de 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. Somos, na prática, um país urbano. No entanto, essa urbanização não foi traduzida automaticamente em planejamento eficiente, infraestrutura resiliente ou serviços públicos integrados. Persistem gargalos históricos em mobilidade, saneamento, habitação e segurança, além de desigualdades territoriais profundas que fragmentam as cidades em realidades paralelas.

É nesse contexto que o conceito de cidade inteligente ganha densidade estratégica. Não se trata apenas de digitalizar serviços ou instalar sensores em postes de iluminação. A lógica das smart cities envolve governança baseada em dados, integração de políticas públicas, uso eficiente de recursos naturais, participação da população e planejamento urbano orientado por evidências. Em nosso país, a própria Carta Brasileira para Cidades Inteligentes consolida essa visão ao defender que a transformação digital deve estar alinhada à inclusão social, à sustentabilidade ambiental e à transparência administrativa.

Além da dimensão social e ambiental, há uma variável econômica incontornável. Cidades que estruturam políticas inteligentes de mobilidade, conectividade e inovação tornam-se mais atrativas para investimentos, talentos e novos negócios. A competitividade urbana passou a ser um diferencial concreto em um ambiente globalizado e altamente conectado.

Outro fator que transforma a tendência em urgência, é a intensificação das crises climáticas. Eventos extremos, como enchentes, ondas de calor, deslizamentos, afetam principalmente populações urbanas vulneráveis. Cidades que não investem em planejamento inteligente, monitoramento de riscos e infraestrutura resiliente ampliam seus próprios custos sociais e fiscais no médio e longo prazo. A ausência de estratégia deixa de ser apenas um problema administrativo e passa a ser um passivo estrutural.

Discutir cidades inteligentes, portanto, é pleitear capacidade de adaptação. É reconhecer que crescimento urbano desordenado, serviços fragmentados e decisões baseadas apenas em intuição não são mais compatíveis com a complexidade contemporânea. A urgência nasce do fato de que o tempo urbano é imediato.

Para consolidar essa visão e responder à urgência que a realidade impõe, eventos focados em cidades inteligentes vêm se tornando espaços essenciais de reflexão, troca de experiências e construção de soluções. Um exemplo relevante é o Smart City expo Curitiba, evento que reúne especialistas, gestores públicos e líderes urbanos para debater os principais eixos da transformação das cidades.

O encontro oferece uma plataforma concreta para discutir como políticas, tecnologia e governança podem colaborar para criar cidades mais humanas e resilientes. A realização de encontros como este evidencia que o debate não está distante da prática, mas sim no centro das agendas de quem busca respostas para problemas que impactam a vida cotidiana de milhões de pessoas.

O debate já não deve se concentrar na pergunta “se” devemos investir em cidades inteligentes. A questão central é “como” acelerar essa transição de forma estruturada, inclusiva e financeiramente viável. Cidades são onde as pessoas vivem, produzem e constroem suas trajetórias. Torná-las mais inteligentes deixou de ser um discurso aspiracional e tornou-se uma responsabilidade concreta de gestores públicos, setor privado e sociedade civil.

Beto Marcelino, presidente do Conselho do Grupo iCities

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