Por que acordo UE-Mercosul é o melhor momento para se ter uma indústria no Brasil

O acordo entre Mercosul e União Europeia costuma ser tratado como um tema de comércio exterior, mas essa leitura é limitada diante do contexto econômico atual. O que está em jogo é uma janela rara de reposicionamento estratégico da indústria brasileira, justamente em um momento em que o ciclo de juros, a reorganização das cadeias globais e a busca por crescimento mais eficiente estão redefinindo decisões corporativas no mundo inteiro. Para empresas que avaliam crescimento orgânico, aquisições ou uma combinação dos dois, o acordo funciona como um novo plano de fundo macro que altera incentivos, riscos e retornos esperados.

A União Europeia já é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com um fluxo de cerca de US$92 bilhões em 2023, além de 700 milhões de consumidores, e essa relação é majoritariamente industrial e intensiva em tecnologia. Máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte representam quase dois terços das exportações europeias ao Brasil, o que revela uma integração produtiva potencialmente mais profunda do que a simples troca de commodities. Com a liberalização tarifária prevista no acordo, que alcança mais de 90% dos bens comercializados entre os blocos, o custo de acesso a esses mercados cai de forma estrutural, alterando a lógica de onde produzir, investir e escalar operações.

Esse movimento ocorre em um momento em que a economia brasileira apresenta sinais claros de retomada industrial – mesmo com o empresariado industrial não raro defasado e reclamando do cenário macroeconômico e político local. Em 2024, a indústria de transformação atingiu um recorde histórico de US$181,9 bilhões em exportações, o maior valor desde o início da série em 1997, enquanto as exportações totais do país chegaram a US$337 bilhões, com um superávit expressivo. Mesmo antes da implementação plena do acordo, as exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 3,2% entre 2024 e 2025, indicando que a demanda já existe e que o tratado tende mais a acelerar do que a criar esse fluxo comercial.

Do ponto de vista estratégico, isso tem implicações diretas para decisões de crescimento. Em ambientes de juros mais altos, como o que o Brasil atravessou recentemente com a taxa Selic na casa dos 15%, empresas tendem a ser mais seletivas com aquisições financiadas por dívida e a priorizar crescimento orgânico, focando eficiência, produtividade e expansão gradual. O acordo UE Mercosul altera essa equação ao aumentar a previsibilidade de longo prazo e ampliar o mercado endereçável. Com projeções oficiais indicando impacto positivo de 0,34% no PIB (Produto Interno Bruto), aumento de 0,76% nos investimentos e crescimento de mais de 2,6% nas exportações totais até 2044, o horizonte de retorno para investimentos produtivos se alonga de forma mais clara.

Esse cenário também favorece estratégias híbridas. Empresas podem optar por fortalecer sua base produtiva local por meio de crescimento orgânico, apoiadas por uma política industrial mais ativa, e ao mesmo tempo usar aquisições pontuais para acelerar acesso a tecnologia, talentos ou mercados. A Nova Indústria Brasil, programa do Governo Federal que prevê cerca de R$300 bilhões em financiamento até 2026, cria um colchão importante para reduzir o risco dessas decisões, especialmente para projetos ligados à digitalização, inovação e transição verde.

Há ainda um fator competitivo relevante. O aumento das importações de manufaturados europeus é uma consequência esperada do acordo. A escolha estratégica para empresas brasileiras não é evitar esse movimento, mas decidir se querem ser apenas mercado consumidor ou participantes ativos dessas cadeias, usando o choque concorrencial como estímulo para modernização e ganho de escala. Investir agora em capacidade produtiva, tecnologia e integração internacional pode significar capturar valor em cadeias mais sofisticadas, em vez de perder espaço para produtos estrangeiros. Ou seja: há mercado a explorar, mas a indústria nacional precisará aliar o potencial custo local inferior à produtividade comparável aos pares europeus.

Outro ponto central é a agenda verde e digital. A União Europeia vem estabelecendo padrões regulatórios que tendem a se tornar referência global. Produzir no Brasil, com uma matriz energética majoritariamente renovável e políticas industriais já alinhadas à sustentabilidade e à digitalização, pode se transformar em vantagem competitiva concreta. Isso reduz o custo de adaptação futura e torna o país uma plataforma industrial atrativa não apenas para o mercado interno, mas para exportação de produtos compatíveis com exigências ambientais cada vez mais rigorosas.

No fim, o acordo UE Mercosul muda o cálculo estratégico das empresas porque amplia o mercado, reduz incertezas regulatórias e se combina, pela primeira vez em muitos anos, com uma política industrial estruturada. Em um mundo em que o crescimento é cada vez mais disputado e o capital mais seletivo, esse contexto favorece decisões mais ousadas, mas também mais racionais. O momento atual não elimina riscos, mas torna claro que adiar investimentos pode custar mais caro do que agir. Dá margem para criar uma empresa, crescer via mercado externo, olhar para seus pares europeus e fazer igual ou melhor – quem sabe até se aliando a eles. Para quem pensa em crescimento de longo prazo, seja orgânico, via aquisições ou por meio de estratégias combinadas, o Brasil entra agora em uma fase em que estar posicionado cedo pode fazer toda a diferença. Produzir é mais lucrativo do que reclamar.

João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.

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