Muito se fala hoje em dia na importância da alta cultura para a formação das futuras gerações. Existem, inclusive, boleiras de cursos sobre isso. Muito se parla também a respeito do quão fundamental é o fomento do desenvolvimento de um pensamento crítico nas tenras gerações, para que elas possam vir a ser indivíduos autônomos.
Via de regra, tanto os defensores de uma coisa quanto aqueles que advogam em favor da outra têm as suas razões e argumentos e, para ser sincero, grande parte deles me parece muito justa; porém — porque sempre há um porém — tem muito caroço nesse angu.
É curioso vermos pessoas que falam até pelos cotovelos a respeito da importância da tal alta cultura sem o menor amor pelo seu cultivo. Figuras que viram mil e um vídeos falando sobre a importância da leitura dos clássicos, mas que nunca se dedicaram com esmero à leitura de um. Aliás, o que mais há em nosso país são pessoas que falam, com o peito estufado, sobre a importância da leitura sem nunca terem lido um livro sequer por livre e espontânea vontade.
Não é à toa, nem por acaso, que hoje o número de não leitores é superior ao número de leitores. E é importante frisar que não é muito alvissareiro perguntarmos quais são os livros (em média, um por ano) que são lidos por aqueles que estão na caixinha dos que se declaram leitores.
Aí vem a pergunta que não quer calar: como é que se pode falar em pensamento crítico numa sociedade onde a prática da leitura é algo distante da vida das pessoas? Lembro-me de uma vez, isso há uns vinte anos, quando questionei uma palestrante, representante da Secretaria de Educação, sobre a dificuldade que os jovens têm para interpretar um parágrafo simples. Lembro-me porque a resposta foi sublime: “Isso não é um problema, não. O que realmente importa é que eles desenvolvam uma consciência crítica”. Aí, meu amigo, foi o boi com corda e tudo.
Na verdade e na real, quando alguém fala que uma opinião ou ideia é “crítica”, o sujeito está apenas dizendo que aquilo que foi dito está de acordo com aquilo com que ele concorda. Só isso e olhe lá.
No fundo, e não é tão fundo assim, tanto os defensores de uma coisa quanto aqueles que advogam em favor da outra, ao usarem esses termos, estão apenas e tão somente sinalizando uma virtude que não possuem para pessoas que, como elas, não têm o menor amor pela procura abnegada pelo conhecimento da verdade, mas que possuem um siricutico danado por parecer bem na fita de seu círculo ideológico de quadratura mais que imperfeita.
Dartagnan da Silva Zanela, professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.