Cidadania

Com 23 anos de fundação Reciclasol se consolida como cooperativa solidária

No período de festas de final de ano muito se fala em famílias, solidariedade, ceias de Natal e Ano Novo. A central de jornalismo traz nesta edição uma reportagem especial do trabalho realizado pela Cooperativa de Trabalho Solidário para Coleta Seletiva e Reciclagem de Resíduos Sólidos (Reciclasol). Com 23 anos de fundação em Guarapuava, há sete anos passou a prestar serviço numa parceria com a prefeitura. Pela cooperativa cerca de 150 famílias estão envolvidas no processo de coleta e reciclagem do lixo doméstico diariamente. Na secretaria municipal de Meio Ambiente cerca de 780 famílias estariam cadastradas. A atual presidente da Riciclasol, Marcia Campos Ribeiro Kulka contou que por muitas vezes a cooperativa esteve a ponto de fechar as portas por falta de apoio do Poder Público Municipal e órgãos fiscalizadores. Sofremos várias ações trabalhistas, alguns procedimentos administrativos dos Ministérios Público e do Trabalho. Somente quando os órgãos públicos entenderam a importância da cooperativa no contexto social, econômico e ambiental passaram a dar um apoio de forma diferenciada, explica Marcia. Ela lembra que a população no geral pensa que por ser lixo descartável não tem custo. Atualmente estão sendo recolhidas cerca de 300 toneladas/mês, desta quantidade somente cerca de 35% vai para o descarte final. A presidente comentou que dos trabalhadores que atuam de forma ativa na cooperativa, a média salarial varia de um a dois salários mínimos/mês. Hoje vivemos uma realidade melhor, mas teve um período que tínhamos um déficit mensal de R$ 7 mil. Com ajuda de um empresário do ramo de reciclagem de papel, conseguimos R$ 100 mil para comprar de uma nova prensa e outros equipamentos, que tornou o trabalho mais ágil e rentável, argumentou ela. Outro momento difícil da entidade foi quando um vendaval destruiu parte dos telhados dos barracões, vindo a ferir alguns trabalhadores. UMA NOVA REALIDADE A secretária executiva, Juliana Anselmo comenta que a colheita da batata nos períodos de safra é a que mais absolve e evita que mais pessoas estejam na coleta de lixo na cidade. Juliana lembra que a cooperativa passou uma realidade diferente depois que atual gestão passou a dar um apoio mais amplo de subsídios, como também do Instituto da Águas do Paraná, com cursos, orientações, capacitações e recursos. A briga por um contrato com a prefeitura durou anos, uma vitória para nós, onde a prefeitura simplesmente está cumprindo a Lei, que é de dar prioridade a uma entidade coletiva no município, destaca Juliana. Ela comenta que outra ação importante da cooperativa ao meio ambiente é a separação e destinação do descarte do vidro, que é moído e vendido a empresas do ramo. Nossa meta é até 2020 assumir o trabalho de coleta em 100% do lixo doméstico da cidade. Isso aumentaria a quantidade de material a ser aproveitado já que o lixo recolhido por duas empresas terceirizadas vai 100% para o aterro sanitário do município, reitera a secretária. [caption id="attachment_16777" align="alignleft" width="262"] Muitas vezes a população nos veem como mendigos, pedintes e nós não somos isso. Temos dignidade e a coleta de lixo é um trabalho como outro qualquer, Zelia Szulek[/caption] FALTA CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO

Juliana defende que no futuro Guarapuava tenha mais cooperativas de coleta de lixo em lados extremos da cidade. É preciso que a classe política conheça mais destas questões do lixo doméstico e a destinação final. O que o lixo representa como renda para centenas de famílias menos favorecidas. Também se faz necessário uma política de conscientização da população na separação e descarte dos resíduos sólidos nas residências, chama atenção a cooperada. Ressaltando que para isso uma das medidas seria um projeto de lei, que regulamentasse os deveres dos cidadãos na separação do lixo doméstico.

[caption id="attachment_16779" align="aligncenter" width="1504"] Marcia Campos Ribeiro Kulka e Juliana Anselmo são consideradas mulheres de sucesso e empreendedoras, nos desafios da administração da cooperativa[/caption] A nossa reportagem conversou com a cooperada, Zelia Szulek, de 49 anos, mãe de dois filhos, moradora do bairro Primavera. Atualmente está afastada das ruas por conta de uma fratura no braço. Ela disse que mesmo afastada a cooperativa não deixou de lhe dar apoio, com cesta básica, na água e luz da sua residência. Estou na cooperativa há 14 anos, construí uma casa, mesmo numa área de invasão com dinheiro da reciclagem. O difícil é a discriminação que sofremos muitas vezes, quando as pessoas nos veem como mendigos ou pedintes. Nosso trabalho é digno como qualquer outra atividade, desabafou Dona Zelia. Ela comentou que no período de festas de final de ano a qualidade do lixo melhora bastante, agregando mais rentabilidade. TROCA DO LIXO POR ALIMENTOS Juliana Anselmo ressaltou que um programa em parceria com a secretaria municipal de Agricultura vem se mostrando muito positivo, com a troca de material reciclável por alimentos oriundos da Agricultura Familiar. Ao todo 70 produtores rurais estão envolvidos neste programa, que poderia ser ampliado se secretaria fizesse esse trabalho de troca, que acontece nos bairros mais populosos. Para a cooperativa esse processo acaba encarecendo o lixo recolhido, destacou ela. A cada cinco quilos de material reciclado, o morador recebe um quilo de alimentos. Um dos desafios da Reciclasol para os próximos meses será aquisição de uma prensa modelo industrial, que diminuiria os custos de produção e aumentaria a rentabilidade, já que o trabalho atualmente é feito com cinco prensas pequenas. COLETA COM TRAÇÃO ANIMAL Nos últimos dias um assunto ganhou destaque na cidade, quanto a utilização de carroças com tração animal na coleta de lixo reciclável. Um projeto de Lei está em discussão na Câmara de Vereadores para tratar do assunto. Juliana Anselmo se diz contra a utilização de animais para este tipo de atividade. Penso que a função do animal sempre foi para trabalhos na roça, solto nas pastagens e não num trabalho diário num asfalto abrasivo, o que considero torturante. Além dos mais pelos nossos levantamentos a coleta com tração animal representa 1% das pessoas que fazem esse tipo de coleta, disse ela. O projeto de lei quer proibir este tipo de atividade na cidade. Até porque conheço mais de 500 pessoas que fazem coleta com carrinhos diariamente e não as vejo reclamando, frisou. Na próxima edição a 3ª reportagem sobre esse assunto. TODAS AS FOTOS DA MATÉRIA