Geral

Aventura triunfante

Histórias e relatos de mães guarapuavanas
["Foto da fam\u00edlia de Fernanda \u00e1 espera do novo membro"] (Foto: Reprodução)

No segundo domingo de maio de todos os anos comemoramos o dia das mães. A data especial é repleta de homenagens, histórias, abraços e lágrimas de emoção. A verdade absoluta é que todo mundo já precisou fazer morada no corpo de uma mulher para hoje existir, uma condição geral de vários seres e que ganha um processo de duração para a vida inteira.

Mães corujas, super protetoras, de primeira viagem, mães de coração, aquelas que adotam e cuidam de todos a sua volta, mães. Todas se tornaram no mesmo momento que nos tornamos filhos. Esse universo matriarquico é repleto de padrões de pensamento, calcados sobre a ideia de que “mãe é mãe”, “mãe é tudo igual” ou até sobre o próprio comportamento da maioria delas gerando inúmeras frases de efeito como “você não é todo mudo” e “não faz mais que sua obrigação” ou “em casa a gente conversa” e “na volta a gente compra”.

Nossa formação enquanto ser humano na maioria da vezes é resultado do investimento da mãe, do que ela acredita ser correto e a genuína história do “um dia você vai me entender” se torna uma ideia incontestável à cada geração.

Como símbolos de força, sensibilidade, compreensão e sinônimos de amor incondicional aí estão essas mulheres dia após dia presentes em nossas vidas, sendo também filhas, irmãs, sogras, tias, avós, sobretudo mulheres que marcam o início da construção familiar.

INSTINTO MATERNO

Rosângela Aparecida Fernandes têm 34 anos e é mãe de três filhos, a primeira gestação ao quinze anos ensinou a dona de casa a amadurecer rapidamente. “A gente aprende muito e eu não me arrependo de nenhum dos três. Tudo isso que acontece faz a gente ser mais forte”, conta.

A filha caçula de Rosângela tem 6 anos e possui a condição do autismo, o que a fez largar o trabalho de auxiliar de produção para poder acompanhar as terapias e aproveitar mais a infância de Julia que apesar da pouca idade traz todos os dias novidades para a vida da mãe. “Quando a Julia começou a falar, ela começou com o inglês ao invés da nossa língua, justamente por ela ser muito inteligente” e relembra “eu percebi que ela era autista quando ela nasceu, eu olhava pra ela e eu já sabia que existia alguma coisa diferente e depois com a demora pra falar e pra andar. Aí com quatro anos ela foi diagnosticada com autismo, uma coisa que me deixou aliviada porque eu já desconfiava e a partir daí sabia que o que ela tinha não era nada grave”, relata a mãe.

Toda mãe têm suas inquietações, anseios, sonhos e medos e Rosângela também enfrenta estes embaraços, como por exemplo o preconceito que Julia sofre pela sua condição. “Uma mãe de uma aluna da escola da Julia falou pra outra mulher na minha frente sem saber que eu tinha uma filha com autismo, que estava revoltada porque o filho dela estava repetindo os gestos de um colega autista em casa, e que a escola precisava providenciar uma sala só pra esse “tipo de criança” ou mandar para a Apae”, conta.

Além disso, é comum o discurso de mães que buscam sempre dar o melhor ou o que nunca tiveram para sua prole, afim de encontrarem a satisfação que buscavam anteriormente, como Rosângela reitera “sou uma mãe super protetora e sempre tento ser para os meus filhos o que minha mãe não foi pra mim, ela me batia muito, por exemplo, e eu hoje tento não repetir esse comportamento com eles”, finaliza a mãe.

FÉ E AMOR

Fernanda Célia Guiné Finger tem 46 anos, também é uma mãezona de três filhos, dois deles já na fase adulta e o mais novo de quinze anos, além de há um ano e dois meses ter se tornado avó, que segundo a visão popular é como ser mãe duas vezes.

Com a rotina familiar e a carreira no campo administrativo, hoje trabalha como secretária da casa do bispo em Guarapuava e relata sobre a trajetória de fé. “Deus me apresentou o que é amar quando me tornei mãe e completou a doçura de seu amor quando me fez avó” e completa “a vida com os filhos envolve muita cumplicidade, broncas, carinho e oração”.

Fernanda é uma mãe, esposa e avó cristã que busca amparo para a família no âmbito religioso pois acredita na transformação através das preces levadas à Deus. “Meu filho do meio teve uma fase da vida que me preocupava bastante, festas e chegadas tarde me impediam de dormir depois de uma semana longa de trabalho, então eu comecei a rezar muito pra que Deus pudesse agir na vida dele e ele mesmo reconhece esse testemunho. Hoje voltou a ser aquele menino tranquilo e está com a vida mais estabilizada, pois Deus coloca tudo em seu devido lugar na hora certa”, relata a mãe.

Como percebeu que as suas súplicas foram ouvidas, achou pertinente compartilhar com outras mães para que pudessem também ajudar seus filhos e praticarem a sua fé, o que formatou um movimento chamado “Mães que oram pelos filhos” que tem o objetivo que o próprio nome sugere, além de unir estas mulheres em uma celebração de esperança, confiança e devoção.

“Jesus teve uma mãe e para mim particularmente é minha grande mestra. Procuro cultivar sempre a fé, a humildade, a determinação e a oração convertendo em amor para meus filhos”, finaliza Fernanda.

REPRESENTATIVIDADE

Ser mãe é um evento que tem apenas data de começo, não estabelece critérios e pode ocorrer em qualquer fase da vida e de várias formas. Eva Schran é conhecida por muitos guarapuavanos, já desempenhou papéis importantes na administração da cidade e como mãe desempenha até hoje. “Queria muito ter filhos, e somente com 22 anos tive a graça de ser mãe da Priscila, minha única filha, mesmo mais tarde querendo ter outros filhos, por problema de saúde não foi possível. Sou muito grata a Deus pela vida da Pri, por toda a gestação, o parto, ter o bebezinho nos braços, amamentar, ver crescer a cada dia, acompanhar na escola, na catequese, depois na adolescência, faculdade, e quando a filha se casa no começo é aquele vazio depois se acostuma e percebe que a família aumenta com a presença do genro. Mas, mãe é mãe, e sempre quer estar presente na vida dos filhos, e, mesmo sabendo que eles voam sozinhos a gente quer saber por onde. É tudo muito lindo”, relata Eva.

Além do mais, com a carreira política, na contabilidade e a filha já na vida adulta, Eva ainda lembra detalhes de quando se tornou mãe e das indagações que cercavam a nova fase tão sonhada. “Ser mãe uma das melhores coisas da vida. É um presente de Deus. É passar por todo o processo em que o teu ser gera outro ser. É do teu ventre que nasce um bebê pequenino, que precisa de amor, carinho, segurança e todos os cuidados. E você mãe o atende, cuida, zela e vê crescer. Sempre com muita alegria, e algumas preocupações como: Será uma boa pessoa? Estudiosa? O que vai ser quando crescer? Nós mães e pais sempre fazemos o melhor que podemos e os filhos com a sua autonomia e liberdade fazem a própria história”, explica e reitera: “tenho uma grande admiração por todas as mães que com dupla, tripla jornada enfrentam com coragem para dar sustento ao filhos. Sempre é a primeira que acorda, para preparar o café, levar os filhos pra creche ou a escola, arrumar a casa, trabalha fora, cuida dos pais idosos, leva pro médico, se cansa, tem dores e é a última que vai se deitar. Finaliza.

DOM E ESPIRITUALIDADE

A figura central dentro de uma casa que zela pelos demais, cuida, organiza, acalma e orienta, geralmente são essas mulheres mães que se fazem presentes na vida dos filhos, como inclusive Rosângela, Fernanda e Eva retratam em sua trajetória. Estas são também qualidades das dirigentes de terreiros de Umbanda em Guarapuava.

Mãe Nega de Iemanjá tem 57 anos e possui em sua casa um espaço dedicado à sua prática religiosa. O terreiro hoje conta cerca de 25 filhos de santo, que sempre frequentam sua casa ainda que não seja dia de gira, porém nos dias dedicados à celebração a quantidade de filhos ainda é maior, reunindo aqueles que já fizeram parte ou que ainda pretendem fazer.

“Ser mãe de santo é ter seus filhos carnais e também assumir um compromisso com o terreiro e ser zeladora de santo é consequentemente ter vários filhos, 10, 20 ou 30 depende do momento e da casa. Ainda que muitos ou poucos, cada um é um filho tratado em sua particularidade e com cada um deles eu me preocupo se está bem ou não, o que está acontecendo e o que eu posso fazer para ajudar. É a mesma preocupação que tenho com um filho de sangue. Ser mãe de santo é abraçar à todos com o carinho e dedicação de mãe”, explica Mãe Nega.

Desenvolver a espiritualidade pode ser considerado um dom que deve ser aprimorado a partir da religião, no entanto adquirir o cargo de liderança requer bem mais que habilidades espirituais, segundo a mãe de santo: “o título se adquire com o tempo, depois de preparos e obrigações, porém o instinto você tem ou não tem. Eu posso dizer que sempre tive pois gosto de cuidar e zelar não só do orixá, mas sim dos filhos que fazem parte minha da casa. Me considero protetora e briguenta, mas ao mesmo tempo equilibro isso com a tranquilidade em poder dar um conforto, um abraço e uma palavra quando é necessário”, finaliza.

Esta data especial é sobre uma aventura cheia de altos e baixos e não é tudo um conto de fadas, mesmo com tanta magia envolvida. As dores e os medos e as mudanças são inevitáveis como também as vitórias a cada adversidade vivida.