O autismo segundo quem convive com ele

Por mais que uma a cada 100 pessoas tenha algum grau da síndrome, o tema ainda é estigmatizado por muitos

Felipe Angonese/Jornal Extra  

Na foto, Eduardo, que cursa Análise de Sistemas na Guairacá, ladeado pelo irmão Ricardo e pela mãe Eva

Numa época em que o autismo era muito mais estigmatizado, Eva Cristina Pereira descobriu a síndrome na família. Eduardo, seu filho mais velho, começou a apresentar um comportamento diferenciado. Ele desenvolveu uma fixação por letras e números e aprendeu a ler com pouco mais de dois anos de idade, mas em seguida regrediu em outros aspectos. O jovem Eduardo passou a se isolar do convívio social e parou de se comunicar.

O primeiro diagnóstico, feito por uma psicóloga, foi de uma criança super dotada. Porém com a intensificação do comportamento de isolamento, característica do autismo, Eva levou o filho para um novo diagnóstico, em Curitiba, onde foi constatado o autismo.

O diagnóstico precoce é importante para os tratamentos, que Eduardo fez durante nove anos na capital paranaense, já que Guarapuava ainda não tinha a estrutura necessária. Eva contou que as características de autista se intensificaram com o tempo, uma delas é a dificuldade de socializar. "O autismo não afeta o intelectual, mas a parte social", disse Eva.

Autismo e escola
Na hora da educação a família contou com o apoio dos professores. Estudando até a 4ª série em escolas públicas, Eduardo teve de ir para uma colégio particular, pois o grande número de alunos nas salas dificultava o acompanhamento e dividia a atenção dos professores.

Desde o início dos estudos do filho, Eva comparecia religiosamente na escola para explicar para professores e alunos a condição de Eduardo. "Se não fosse pela ajuda dos professores o Eduardo não estaria onde está hoje, fazendo faculdade", disse.

Atualmente, com 19 anos, Eduardo cursa Análise de Sistemas, na Faculdades Guairacá. No primeiro ano, ele ainda está se adaptando, já que a intensidade de um curso superior é muito maior que do ensino médio. Por isso a mãe o ajuda com alguns conteúdos e os professores entendem as necessidades do rapaz. Para Eva, essa parceria faz com que ele siga em frente.

Ele foi aprovado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e conseguiu uma bolsa na faculdade. "Para mim foi uma grande surpresa. Foi o primeiro Enem que ele fez. As vezes a gente subestima a capacidade, super protege sem saber a dimensão do que eles podem alcançar", disse.

Eduardo falou que "o Enem foi tranquilo, mas não imaginava que ia passar. Mesmo assim ainda tenho dúvida do que eu quero fazer (daqui para frente)". De sua natureza, Eduardo não interage muito com os colegas, mas disse que ninguém o trata mal.

Agora o fiel torcedor do Bayern de Munique segue na luta para terminar o curso superior e depois ingressar no mercado de trabalho, como qualquer outra pessoa.

Autismo e sociedade
"Não da para cobrar das pessoas por que elas não têm a obrigação de conhecer o autismo, nem eu conhecia, tive que aprender. Então é importante ser divulgado, para que as pessoas tenham conhecimento e entendam a realidade", disse Eva.

Para Eva, os pais de autistas têm as mesmas dificuldades que os professores e o restante da sociedade, que é a falta de informação. "Muitos dos pais que têm crianças autistas não os tiram de casa, ficam isolados, por desconhecimento. Mas é importante que as pessoas conheçam o autista para que ele seja inserido na sociedade, no mercado de trabalho. Para o Eduardo isso é importante, ele se sente fazendo parte da faculdade, para ele é um passo muito grande", disse Eva.

Ela também luta pela inserção do autista na sociedade, mas diz que é um processo árduo. "Passei por momentos difíceis, às vezes você se chateia com o comportamento das pessoas pela falta de conhecimento, você vai encontrar pessoas de todo tipo, que aceitam que não aceitam e que têm medo". disse. Mas Eva garante que a partir do momento que a pessoa conhece ela passa a entender, pois o autismo não chega a ser uma doença, mas sim uma síndrome comportamental.

Gênios autistas
Especula-se que grandes gênios da humanidade, como Albert Einsten e Isaac Newton, eram autistas, mas viviam isolados da sociedade que não entendia o seu comportamento. Hoje em dia celebridades e atletas bem sucedidos, como Steven Spielberg e Lionel Messi, são diagnosticados como autistas.

Porém Eva disse que a realidade não é bem essa. "A minha preocupação é que tem muitos pais que não gostam desse rótulo de autista super dotado, na verdade a maioria dos autistas tem bastante grau de dificuldade, o Eduardo é independente mas precisa o tempo todo de orientação", esclareceu.

Outro ponto de destaque é que os autistas têm personalidade, e muita. "Você nunca vai encontrar um autista igual ao outro, eles desenvolvem áreas muito diferentes, mas o comportamento do isolamento é muito parecido. Também o fato de falar pouco é do comportamento do autista", comentou Eva.

Agma
Em Guarapuava as famílias de autistas se reúnem para trocar experiências, pedir orientações e receber apoio. A Associação Guarapuavana Mundo Azul (Agma) protagonizou recentemente o 1º Encontro de Conscientização sobre Autismo, que teve como objetivo discutir o tema no município e debater ações para capacitar profissionais da saúde e da educação.

"A associação fala a nossa língua, é lá que consigo trocar experiências com outros pais, ajudar e ser ajudado, por que tem pais que não sabem o que fazer com os filhos autistas e a gente se ajuda, se entende", disse Eva.

Uma nova reunião será realizada na quinta-feira (11) para reunir os pais de autistas e convidar os que ainda não fazem parte do grupo. Interessados podem comparecer na rua Pedro Caetano Lemes, 168, no bairro Morro Alto, às 19h30.

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O dano é maior do que se imagina.

A confusão se estabeleceu em definitivo. Falta luz, bom senso e sobra hipocrisia.  Esta introdução não apaga a verdade de que as coisas embaralharam-se.  Governo e Poder se misturaram demais na mesma proporção que não se diferencia mais Partido e Estado. O prejuízo é incalculável e tudo o que foi conquistado em nome das inclusões e emancipações positivas, corre o risco de um atropelamento reacionário em muitos segmentos.  Separar o joio do trigo nunca foi tão necessário.
Não há dúvida de que muitos fundamentos sociais precisam ser mantidos sob pena de vermos o atual Congresso conservador tirar da gaveta seu saco de maldades e construir uma agenda de projetos considerados absurdos e infestar o Brasil com práticas fascistas e xenófobas. O ser humano pode perder muito.
Vou inovar.  Muitas construções positivas caminham para uma demolição.  Não precisamos de exageros.
O fracasso do PT e a negligência da Presidente abriram uma cratera e, equivocadamente, muitas coisas interessantes que foram gestadas, estão sendo profanadas e extirpadas. O dano é grande. Que os culpados precisam ser condenados, que o Estado precisa ser ressarcido e os inconsequentes afastados do poder, não tenho dúvida.   O problema parece estar no fato de que a inconsequência de alguns arrasta para o inferno todos os outros e o imaginário popular é cruel.  Ouvi de um colega algo que merece ser compartilhado. Disse: 'a boa esquerda paga pela esquerda errante e burocrática na mesma proporção que a boa direita paga pelos excessos de raivosos. '  Há uma generalização que lembra o ataque do terror islâmico às obras de arte no norte do Iraque.  Alto lá, precisamos preservar algumas questões vitais para nossa sobrevivência democrática.  Para combater tudo isto de errado que vimos e estamos vendo, não precisamos perder tudo.
Não é hora de retrocesso, mas sim de reflexão, avaliação, boas escolhas e avanços.
Sem o contexto, se um estrangeiro recém-chegado fosse perguntado sobre quem nos governa, diria com objetividade: Joaquim Levy e o triuvirato do PMDB, Eduardo Cunha; Renan Calheiros e Michel Temer. Ora, não dá para confiar neste time, afinal o Congresso continua passível de suborno e de aparelhamentos suspeitos. Apesar de a aversão maior ser ao PT, a desconfiança é geral.
Há perplexidade e eu compreendo, mas não dá para criminalizar todas ações governamentais como alguns querem. Criminalizar tudo é tão danoso quanto não criminalizar nada.
No fundo, o brasileiro odeia extremismo e radicalidade e deseja que algo seja feito para continue vivendo, progredindo, melhorando sua vida e todos sabemos que a vida tupiniquim melhorou significativamente nos últimos anos.  Ninguém aceita retrocesso.
O que me preocupa é que ‘em nome do tudo está ruim e precisa ser tirado’, percamos o bom senso e nos deixemos escorregar no ‘ladeira abaixo’, destruindo trajetórias coletivas significativas e necessárias que alguns construíram com muita dificuldade.

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