Dona Regina – “A feiticeira”

Hoje me dei a liberdade de lembrar da faculdade. Compartilho contigo uma pequena história que me emocionou quando eu ainda não tinha noção de todas as coisas que a “vida real” trás guardada para um enfermeiro. Escolhas, desafios, barreiras, dores, angústias, etc.

Abaixo relato á história de uma mulher. Dona Regina morava em uma instituição de longa permanência para idosos. Naquele asilo, moravam mulheres idosas e com algum transtorno mental. Mulheres abandonadas pelos filhos, netos e parentes. Mulheres que precisavam apenas de um olhar, um carinho, uma palavra.

Eu e alguns colegas participávamos de um projeto que levaria brincadeiras, amor e atenção a essas mulheres asiladas. Escrevi o texto abaixo no dia 14 de agosto de 2008, e seis anos depois estou tendo a oportunidade mostrá-lo:

Dona Regina chorava muito e queixava muita dor em todo corpo: “Você não sabe a dor que eu sinto!”. Dizia estar “entregue” e tinha vontade de morrer.

O que fazer para acalmar aquela pobre senhora que sentia falta da família (que desapareceu) e que estava tão carente? Eu tentei de várias formas acalmá-la e de nada adiantava, ela não parava de chorar e esse choro me agoniava. Então resolvi mudar de estratégia, dar a carteada final.

Com muita esperança vi que havia a possibilidade de criar uma “flor” de bexigas… Quando entrei no quarto ela me olhou e novamente pôs-se a chorar, olhei fixo em seus olhos e disse: “Eu lhe trouxe uma flor!”. Pela primeira vez eu vi um sorriso, que veio acompanhado de uma longa choradeira. Mas dessa vez não era dor, era emoção.

Vi em Dona Regina uma mãe, uma avó, e pensei comigo: “Como um filho, um neto, pode ser capaz de abandonar uma mãe, uma avó…uma pessoa com um coração tão grande, e com uma história de vida tão maravilhosa”.

Dona Regina, sem conter o choro me abraçava forte, então olhei novamente em seus olhos e pedi: “Prometa pra mim quem não vai mais chorar”. Ela prometeu! Mas em 10 segundos desabou lágrimas novamente em meus ombros. E desabafou: “Eu não tenho documentos, eu não sei a minha idade, meus filhos me abandonaram, meus netos não querem me ver mais, eu não tenho ninguém”.

Ao ouvir esta frase resolvi falar o que meu coração mandava: “Opa, como a senhora não tem ninguém…isso é mentira…a senhora tem a mim!” Ela me olhou no fundo dos olhos e disse: “filho, promete que você vai voltar aqui, que você não vai me deixar?”. Pôs-se novamente a chorar.

Eu não contive minhas lágrimas, algo me dizia que eu fazia o papel do filho ou do neto que a abandonara. A emoção me envolveu, tive vontade de chorar como ela chorava, meu coração agora se encontrava fragilizado, abalado pelo sofrimento humano, indignado com indivíduos capazes de desprezar mães e avós!

Mas resisti, meu objetivo ali era gerar alegria, e não tristeza. Aos poucos fui ganhando sua confiança, tentando mostrar que ao seu lado não tinha um neto de sangue, mas tinha um jovem passível de muito amor e afeto, disposto a distribuir abraço e dar milhões de beijos na Vovó Regina.

Meus colegas entraram na brincadeira, bexigas viraram espadas para matar bruxas e feiticeiras que “estavam” no quarto; cantamos parabéns para um aniversário que nem existia; fizemos uma grande algazarra. Enfim…Dona Regina não chorou mais…ela tinha uma espada e um companheiro de guerra…Eu!

Pode ser que Dona Regina não chore nunca mais. Pode ser que amanhã ela volte a chorar, Pode ser que no próximo encontro, Dona Regina nem se lembre do Emanoel. Mas eu estarei lá, de braços abertos, pronto para sorrir e batalhar com nossas espadas de bexiga, ou chorar e se emocionar ainda mais.

Eu não posso tomar seu sofrimento e nem cessar sua dor, mas eu posso oferecer meu ombro pra que ela chore, e propor saídas pra que ela possa sorrir. E fazer sorrir quem está sofrendo vale mais que qualquer pedra preciosa. Dá prazer. Dá esperança. Dá paz de espírito!

É nesses pequenos momentos que a gente esquece que temos problemas, passando a pensar só no outro. Que a gente deixa de lado as preocupações, passando a preocupar-se apenas com o outro. Que a gente aprende a aceitar cada um, com suas qualidades e com seus defeitos, passando a valorizar o ser humano como ele merece, com respeito e dignidade. 

Após quinze dias, eu e meus colegas voltamos para mais uma visita. Descobrimos que no dia seguinte à nossa visita anterior, Dona Regina foi internada com cirrose hepática, e morreu três dias depois, sozinha em um leito hospitalar. Dona Regina nos deixou muitas saudades, mas irá continuar conosco nesta longa caminhada, nos dando força e estímulo para valorizar cada vez mais o ser humano! Não importa aqui, do que Dona Regina morreu, ou quais as causas de sua doença. O que ficou marcado foi aquele último sorriso, aquele último abraço, ou aquelas tristes lágrimas!

Não sei o teor do sofrimento de seus netos e filhos…só sei que eu nunca esquecerei desta mulher, que no auge da dor, conquistou o coração desse jovem, que no auge da emoção, teve forças para fazê-la sorrir.
Ela não teve vergonha de chorar…eu não tive vergonha de enxugar suas lágrimas!

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