Cuidemos mais de nossa integridade pessoal, afinal é com esta que podemos contar

A semana que passou, ao menos em nosso Estado, exalou um forte odor de estelionato eleitoral. Qualquer pessoa razoável imaginava que algumas medidas administrativas deveriam ser tomadas para equacionar as contas públicas e estender nossa sobrevida por mais um período, mas o que aconteceu foi um verdadeiro massacre aos cidadãos comuns de nosso Estado com uma tarifação irracional sem precedentes.

É possível ver o sorriso sarcástico de nossos representantes, comemorando a frase de John Galbraith: “… nada é tão admirável em política quanto uma memória curta”.  Mais lamentável  ainda é saber que nossos representantes locais estão amarrados até o pescoço com qualquer coisa a ser feita pelo Governo do Estado ou pelo Governo Federal.

Tudo indica que reputação e escrúpulo estão em baixa na esfera pública, restando-nos a redução da política ao resquício da coerência pessoal.  Esta sim precisa ser mantida, apesar de assistir aqui e ali um mercado voraz de compra e venda de personalidades.

O cidadão comum é um verdadeiro herói, pois apesar do que fazem, mantém-se na busca incansável de cuidar bem da família, do trabalho, da vida espiritual  e de sua integridade dentro de padrões éticos aceitáveis.  Deste modo, se não é possível mudar a realidade, pelo menos vamos dar o bom exemplo e realizarmos um trabalho de fazer com que a memória não seja tão curta e que nossas escolhas considerem o partido do mal menor, que apoia o lado que parece menos ruim, em circunstâncias onde, de fato, não há dois lados.

Clausewitz um dia afirmou, não sem  cinismo, que a guerra na verdade não é outra coisa senão a continuação da política através de outros instrumentos. Constatar isto é um martírio. Tão Indigesto quanto assistir o tratoraço do Governo atingindo cidadãos comuns é ter que saber que Bolsonaros existem por aí, disfarçados de homens e mulheres normais e politicamente corretos. Dá nojo saber que nada há por acaso e se este indivíduo chamado de homem faz o que faz é porque tem público fiel e aval voluntário. Triste cena.

Sobre o governo do Estado e este gesto de cobrar a conta de quem não deve, tenho a dizer apenas que o poder não corrompe, mas revela. Não é hoje que sabemos que  corromper significa revelar uma natureza oculta e oposta à natureza que sempre existiu.

Diante disso, já decidi o que fazer. Fazer a minha parte, independente do que possa acontecer, pois como escreveu Confúcio, ‘mais vale acender um fósforo do que maldizer a escuridão’. Quero uma nova alforria. Não há mais sentido ficar ou emprestar palavra para aqueles que negociam demais. Estou sem entusiasmo para ficar como está. Estou declinando da máxima: “Não há mais entusiasmo, mas sim, o continuar porque não encontrou-se outro jeito de ser”. Não vou continuar.

Estou rescindindo contratos sociais e políticos para gozar de algo que não tem preço: fazer do seu jeito, querendo esclarecer muitos para mudar alguma coisa. A vida é muito rápida para manter a preguiça do falar e do fazer. Não podemos dispensar nosso maior atributo que é a imaginação radical.

Não se trata apenas de ver o que está acontecendo ou de se ver paralisado e impotente diante do que fazem de errado ou do que não fazem de certo, mas sim um pouco mais de coragem e autonomia para formular aquilo que  ainda não está aí, de ver em qualquer coisa aquilo que não está e que poderia ser um pouco melhor.

Nossa sociedade está exageradamente funcional e funciona bem para interesses que não são nossos. Com raras e honrosas exceções, nos entregamos por muito pouco. O simples fato de ter potencialidade para ter ideias novas, nos credencia para que coloquemos em prática novas representações.

Que possamos nos antecipar e contribuir para soluções individuais ou integradas, desconstruindo a memória curta, não sucumbindo à inação, pois o preço da não execução é elevado demais. Se organização política desejável e aperfeiçoamento de nossas instituições estão mais para uma lenda do que outra coisa, cuidemos mais de nossa integridade pessoal, afinal é com esta que podemos contar.

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