Setembro amarelo e o tabu desmistificado

“O autocídio se tornou um problema de saúde pública, afinal, tem muita gente se matando. E o que é pior: cada vez mais cedo”, assim o psiquiatra José Cleber Ferreira alerta a respeito deste problema que se torna, cada dia mais, perigoso. No mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio já mata mais do que a AIDS e perde apenas para os acidentes de trânsito. Além desse fator, outro que tem contribuído para o receio da população em relação ao tema, é a alto índice de morte de jovens. O questionamento que fica então é: por que as pessoas acabam com a própria vida?

Para a psicóloga Lisiane Steagall-Condé, a mágoa pertence a cada um e pode ser causada por várias razões. “Pode ser um amor de infância, um casamento que se desfez. A intensidade da dor não depende do motivo. Às vezes, uma razão boba para nós pode ser a causa de um sofrimento imenso para outra pessoa. Então, não podemos desdenhar nem do motivo e nem das consequências que essa tristeza pode acarretar”, explica.

Além disso, ao invés de ajudarmos, antigamente, existia uma espécie de acordo entre os veículos de comunicação. A maioria deles não divulga mortes quando se trata de suicídio e nem trata o tema. Porém, esse verdadeiro tabu está sendo desmistificado. Isso porque, neste mês de setembro – identificado pela cor amarela – todos dedicam-se inteiramente a discutir o tema. Agora abertamente.

Evitado

O suicídio pode ser evitado em mais de 90% dos casos. E também por isso o Setembro Amarelo foi instituído como uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria, para discutir o tema.

Segundo a Enciclopédia, a palavra vem do latim sui ou do grego autos (próprio) e do latim caedere ou cidium (matar). Seria, então, o ato de matar a si mesmo. Entre as causas mais comuns estão, transtorno mental e/ou psicológico que pode incluir depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e abuso de drogas.

O Brasil é o oitavo país com mais episódios no mundo, mas em número de casos por 100 mil habitantes o país passa a ser o 113.º do ranking mundial. No país é registrada uma ocorrência a cada 45 minutos. O estado do Rio Grande do Sul tem mais casos por habitantes. E o Rio de Janeiro, menos.

Falar é bom

Visto como misto de covardia e coragem, o suicídio sempre foi um tabu nas sociedades ocidentais, o que o levou a ser omitido em várias situações, só piorando o problema. Em muitos lugares as vítimas de suicídio ainda não são enterradas próximo das outras nos cemitérios.

Hoje é sabido que se pode dar grandes passos para a redução das taxas de suicídio, começando por aceitar as pessoas tais como são, acabando com os tabus sociais, falando sobre as ideias de suicídio que as acometem. Só o fato de falarem sobre o que sentem ajuda-as a atenuar o seu nível de angústia e sentimento de isolamento.

Algumas pessoas são mais ou menos vulneráveis a acontecimentos particulares de trauma, e outras podem considerar determinadas situações dolorosas como uma vivência positiva para o crescimento.

Entidades

Algumas entidades se dedicam a atender pessoas que estejam em risco. Em todo pais, são cerca de setenta os endereços do Centro de Valorização da Vida (www.cvv.org.br). Todos estarão identificados, neste mês de setembro, com uma faixa amarela.

Em Guarapuava, a ala de Psiquiatria do Santa Tereza, que foi referência na região, infelizmente não atende mais.

Além disso, como já discorrido anteriormente, cada pessoa que pensa em se matar possui um histórico, uma dor e uma razão. Por isso, os tratamentos variam de acordo com o enfermo. O mais importante, é claro, é que esse cidadão tenha acesso a um profissional. Afinal, só depois de dada a voz a ele é que chegarão, paciente e psiquiatra, à melhor solução.

A psicóloga Lisiane Steagall-Condé conta que é raro quem chega em seu consultório já falando que vai cometer um ato de suicídio. “Eticamente, quando recebemos esse tipo de caso, somos obrigados a falar com a família, afinal, se uma pessoa está declarando de forma tão lavada, ela precisa de contenção”, explica.

Essa contenção pode vir de três diferentes formas, segundo ela. “Em alguns casos é apenas o controle familiar, no sentido de ter alguém por perto, não deixar nada perigoso próximo. Outras vezes é a medicamentosa, aí entra o psiquiatra com uso de medicamentos para fazer essa tensão interna diminuir. E, em casos mais raros, como o de transtorno, é necessário o internamento para que ela não cometa o ato”, finaliza.

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