Crack, uma epidemia devastadora

Em Guarapuava, hoje, há 1.319 dependentes químicos de álcool e outras drogas, atendidos pelo Poder Público. Desse número de pessoas, mais de 90% são usuários de crack. Os números assustam e exigem atenção

Cerca de cinco vezes mais potente que a cocaína, sendo também relativamente mais barata e acessível que outras drogas, o crack tem sido cada vez mais utilizado, e não somente por pessoas de baixo poder aquisitivo, e carcerários, como há alguns anos. Ele está, hoje, presente em todas as classes sociais e em diversas cidades do país.

Giovani Caetano Jaskulski, psicólogo especialista em dependência química

De acordo com o psicólogo especialista em dependência química, Giovani Caetano Jaskulski, tal substância faz com que a dopamina, responsável por provocar sensações de prazer, euforia e excitação, permaneça por mais tempo no organismo. Perseguindo esse prazer, o indivíduo tende a utilizar a droga com maior frequência.

Segundo o psicólogo, o vício acontece numa velocidade absurda. Pesquisas apontam que em um mês o usuário passa de eventual a dependente. E os pesadelos começam: perda da realidade, necessidade cada vez mais frequente de consumir a droga, e também ergue-se uma barreira de convivência entre o usuário e sua família, afinal ele não consegue se relacionar mais com as pessoas. “Em pouco tempo, o usuário vira escravo do crack e fará de tudo para ter a droga sempre em mãos”, diz Giovani. Neurônios vão sendo destruídos, e a memória, concentração e autocontrole são nitidamente prejudicados.

Segundo o psicólogo, cada indivíduo é diferente do outro e carrega consigo sua própria complexidade, por isso não há como determinar o que leva uma pessoa desenvolver uma dependência química ao experimentar uma droga, porém há vários fatores que dirão se o indivíduo é um dependente químico em potencial. “Pessoas que possuem casos de dependência química na família tem mais tendência a desenvolver o vício, já que a hereditariedade é um dos fatores determinantes. Isso explica porque algumas pessoas experimentam drogas e não gostam, enquanto outras viciam no primeiro contato”, diz Giovani.

Normalmente, as pessoas buscam na droga um refúgio para os problemas. “Desestrutura familiar e dificuldade de lidar com frustrações são as principais causas de dependência química”, declara o especialista.

 

Recuperação

Superar a dependência química não é fácil. A dependência do crack então, que é uma droga extremamente cruel, requer, além de ajuda profissional, muita força de vontade por parte da pessoa, e apoio da família, que de acordo com Giovani também precisa de apoio junto com o usuário, por ser diretamente afetada pelo vício.

Conforme o psicólogo, a tendência do usuário do crack é se afastar de amigos e familiares que não fazem uso e de se aproximar de quem usa o crack. O usuário, inclusive, deixa de apresentar sentimentos como o carinho e demais sentimentos afetivos com as pessoas próximas.  “Quando a família participa do tratamento, a chance de recuperação aumenta muito. A pessoa precisa ter força própria para sair da droga, mas a família também precisa de ajuda profissional para saber lidar com o usuário na busca do tratamento”, diz.

Mas nem todos os usuários têm a mesma sorte. A pior situação é das pessoas que perderam tudo, que não têm família, e ficam como animais vivendo nas ruas esperando a atuação do poder público. Segundo o Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), realizado em 2012 pela Unifesp, estima-se que cerca de 30% dos usuários de crack perdem a vida em um prazo de cinco anos – ou pela droga em si ou em consequência de seu uso (suicídio, envolvimento em brigas, comportamento de risco em busca da droga – como prostituição, etc.). Quanto a este último exemplo, tal comportamento aumenta os riscos de se contrair AIDS e outras DSTs e, como o sistema imunológico dos dependentes se encontra cada vez mais debilitado, as consequências são preocupantes.

 

Em Guarapuava

O trabalho de acolhimento a usuários de crack e outras drogas, em situação de grande exclusão social, é um grande desafio da administração municipal de Guarapuava. Isso porque os números de dependentes químicos da droga é bem expressivo.

De acordo com dados de 2017 do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), em Guarapuava, hoje, há 1.319 usuários de álcool e drogas, atendidos pelo Poder Público. Desse número de pessoas, mais de 90% são usuários de crack.

O enfrentamento coordenado pela Secretaria Municipal de Assistência Social tece uma rede de ações coordenada pelo Departamento de Políticas Públicas Sobre Drogas. O CAPS AD, o CIS (Centro Regional de Integração Social em Guarapuava), a Comunidade Bethânia, entre outros, são parte do enfrentamento, que age na prevenção, combate e recuperação de dependentes químicos no município.

Essa rede tem servido como política modelo para outras cidades brasileiras há pouco mais de dois anos. O Observatório do Crack da Confederação Nacional de Municípios (CNM), afirmou que Guarapuava é uma das poucas cidades do Brasil que possui um departamento exclusivo para enfrentamento às drogas.

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