Histórias do futebol: o dia que a Seleção esnobou o Beatles

No ano de 1966, o futebol brasileiro tinha grande prestígio, pois era visto como o mais forte do planeta. Afinal de contas, a seleção nacional vinha de dois títulos mundiais, contando com um time muito forte (apesar de envelhecido), após as conquistas na Suécia, em 1958, e no Chile, em 62. Depois de uma pré-lista de quase 50 atletas e de várias controvérsias, o técnico Vicente Feola definiu o grupo que contava com jogadores como Garrincha, Gilmar, Djalma Santos, Belini, Gérson, Zito, Jairzinho, Tostão, Edu e o, já famoso, rei Pelé. O grande objetivo, desta vez, era garantir o tri na terra dos inventores do futebol: a Inglaterra.

A fama do futebol brasileiro era tanta que um fato curioso (e improvável) teria acontecido durante aquele torneio: segundo relatos de Pelé (numa entrevista concedida em 2011 e novamente em 2013, durante o lançamento de um livro), o grupo The Beatles teria se oferecido para fazer um show dentro da concentração para os jogadores brasileiros. No entanto, a direção da Confederação Brasileira de Desportos (entidade que comandava o futebol nacional antes da CBF) teria barrado a banda britânica, sob a legação de que os jogadores deveriam estar focados apenas nos jogos da Copa do Mundo: “Estávamos concentrados em Liverpool e os Beatles quiseram tocar na concentração. Os dirigentes não deveriam conhecer os Beatles direito e falaram: ‘Não, esses cabeludos não vão tocar aqui não, esses moleques não vão fazer barulho aqui não’ (risos),” declarou o ex-camisa 10 da seleção, em 2011.

De acordo com Pelé, ele só ficou sabendo da história nos anos 70, quando já jogava pelo New York Cosmos. O Rei teria encontrado John Lennon em uma escola de idiomas (Pelé estava aprendendo inglês, enquanto Lennon fazia aulas de japonês), quando o músico teria confirmado o ocorrido: “Aí conversamos e ele me disse: ‘Pô Pelé, você sabe que em 1966 nós queríamos tocar para você em Liverpool, mas não deixaram a gente entrar na concentração’. Já viu um negócio desses?”

A curiosa história é contestada por alguns bealtemaníacos, visto que a agenda da banda não bateria com as declarações de Pelé. Alguns, até mesmo, acreditam que o Rei teria sido vítima de uma “pegadinha” de John Lennon, no encontro nos anos 70. Verdade ou não, o que se sabe é que, dentro de campo, o time não parecia estar assim tão focado, quanto queriam os diretores da CBD. A campanha foi pífia: uma das piores do Brasil na história das copas.

Na estreia, o time brasileiro venceu a Bulgária por 2×0, com gols de Pelé e Garrincha, ambos de bola parada (foi o último jogo com Pelé e Garrincha entre os titulares. Com eles jogando juntos, o Brasil nunca perdeu). Caçado em campo, Pelé (na época com 26 anos) ficou de fora do segundo jogo e o Brasil perdeu para a Hungria por 3×1. Na partida que valia a classificação, nova derrota, mais uma vez por 3×1, desta vez para Portugal, que resultou na eliminação na primeira fase da competição. O detalhe é que, nos três jogos, Feola utilizou 20 dos 22 jogadores convocados, o que prova que o treinador esteve bem longe de encontrar um time ideal. Restou aos campeões mundiais engolir o orgulho e voltar para o Brasil, enquanto as demais equipes seguiam busca do caneco.

Com a eliminação precoce da seleção favorita, o torneio seguiu e os donos da casa foram ganhando força. Na primeira fase, o English Team se classificou em grupo complicado, que também tinha Uruguai, México e França. Na estreia houve empate em 0x0 com os uruguaios. Nos jogos seguintes, com uma defesa sólida e gols de Hunt, os ingleses aplicaram 2×0 no México e o mesmo placar sobre a França. Nas quartas-de-final, venceu a Argentina por 1×0, em um jogo muito contestado pelos hermanos. O árbitro alemão, Rudolf Kreitlein, expulsou Rattín por indisciplina e pelo “olhar em seu rosto” mesmo não entendendo espanhol. Na semifinal, derrotou a seleção portuguesa por 2×1, com dois gols de Bobby Charlton. Eusébio diminuiu, de pênalti.

Na grande final, no estádio Wembley, os donos da casa empataram em 2×2 com a Alemanha no tempo normal. Na prorrogação, aconteceu um dos lances mais polêmicos da história das copas: aos 11 minutos, Geoff Hurst chutou no travessão, a bola caiu sobre a linha e saiu, mas a arbitragem confirmou o gol. Desanimados com a marcação, os alemães sofreram mais um gol, que garantiu o primeiro (e único) título mundial do futebol inglês. A comemoração do feito inédito ganhou as ruas da terra da Rainha, embalados sob o som do rock inglês, que dominou o mundo nos anos 60 e se eternizou nas playlists do mundo inteiro, até os dias de hoje.

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