Suicídio: precisamos falar sobre isso

Mais de 800 mil pessoas se matam todos os anos, com maior incidência entre jovens dos 15 aos 25 anos


“O autocídio se tornou um problema de saúde pública, afinal, tem muita gente se matando. E o que é pior: cada vez mais cedo”, assim o psiquiatra José Cleber Ferreira alerta a respeito deste problema que se torna, cada dia mais, perigoso. No mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio já mata mais do que a AIDS e perde apenas para os acidentes de trânsito. Além desse fator, outro que tem contribuído para o receio da população em relação ao tema, é a alto índice de morte de jovens. O questionamento que fica então é: por que as pessoas acabam com a própria vida?

Primeiramente é necessário entender que a morte, como um todo, é um tabu. Mas, o suicídio toma proporções imensuráveis nesse quesito. Isso porque, de acordo com Ferreira, muitas pessoas são atingidas quando um caso ocorre. “A cada ato desses, seis pessoas ao redor são impactadas diretamente. E aí vem, então, o sentimento de culpa do familiar, daquele amigo próximo. O que eu poderia ter feito? É um choque extremamente significativo”, explica.

Agravantes    

Essa taxa elevada pode ser explicada. A primeira e principal razão está ligada ao uso demasiado de álcool e demais drogas. “Essas substâncias psicoativas causam um comportamento impulsivo no adolescente. Consequentemente há um risco maior. Mas, é necessário pensar que, às vezes, o jovem não se mata porque quer, e sim, porque tenta’. Além e unido a isso, o psiquiatra Cleber completa: “Também precisamos levar em consideração que hoje eles não sabem lidar com a frustração. O fim de um relacionamento misturado com essas substâncias pode matar”, descreveu.

Todavia, é necessário pensar que o suicídio se tornou uma epidemia de proporções globais – crianças, jovens, adultos… Todos fazem parte do índice que comprova que mais de 800 mil pessoas se matam por ano. Mais uma vez, de acordo com a OMS, o fenômeno tira a vida de um cidadão a cada 40 segundos.

Outros números importantes são da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Conforme pesquisas, o autocídio geralmente é causado por doenças psiquiátricas, como transtornos afetivos, transtornos psicóticos (esquizofrenia) e alcoolismo. Em quase 90% dos casos há o diagnóstico de doença mental ou de uso abusivo de substâncias psicoativas.

Para a psicóloga Lisiane Steagall-Condé, a mágoa pertence a cada um e pode ser causada por várias razões. “Pode ser um amor de infância, um casamento que se desfez. A intensidade da dor não depende do motivo. Às vezes, uma razão boba para nós pode ser a causa de um sofrimento imenso para outra pessoa. Então, não podemos desdenhar nem do motivo e nem das consequências que essa tristeza pode acarretar”, explica.

Como detectar o perigo

Provavelmente você já disse ou ouviu de alguém muito próximo. “Que vontade de morrer”. Essa é uma frase frequente para aqueles momentos de frustração comuns do dia a dia. Uma nota baixa, o fim de uma relação, ser despedido do emprego, aquela bronca bem dada. Até aí, tudo bem. Mas, como diferenciar uma “simples brincadeira” de uma verdadeira intenção?

Infelizmente, adivinhar é muito difícil. Para completar, profissionais da área e leigos não possuem bola de cristal. Mas, a pessoa capaz de acabar com a própria vida, sempre deixa rastros, como os citados pelo psiquiatra Cleber. “Estudos mostram que esses seres sempre passam por um clínico geral dentro de seis meses antes da morte. Além disso, é aquele cidadão que fala para o gerente cancelar a conta-corrente, que assina o documento de transferência do carro, que liga para familiares distantes para ver se está tudo bem, dizer que está com saudades…”.

Além dessas condições, a psicóloga Lisiane Steagall-Condé aponta mais algumas. “A pessoa se fecha, não quer sair mais, parece depressiva, sem energia ou vontade de viver. Isso aponta para uma possibilidade suicida. Então, a família e os amigos mais próximos têm a função de detectar isso e imediatamente procurar ajuda”, diz.

Um ponto essencial para o desconhecedor do assunto, mas, que já ouviu um amigo falar sobre a morte ou sabe de um parente com esses sintomas é nunca desdenhar do fato ou omitir ajuda caso cheguem a conversar sobre isso. “Uma coisa que nunca deve ser feita: se a pessoa te pedir segredo sobre uma possível morte, nunca jure que não contará para ninguém. O que deve ser feito nesse momento é olhar nos olhos dela e falar: ‘o que eu posso fazer para te ajudar? ’. Lembrem-se sempre que uma pessoa que diz que quer se matar, realmente pode fazê-lo”, revela o psiquiatra.

Entretanto, detectar um suicida é uma tarefa difícil até mesmo para os profissionais. Afinal, nem todos chegam aos consultórios dizendo aos quatro cantos que pretendem se matar. O processo de identificação cabe aos psicólogos e psiquiatras que buscam reconhecer os fatores de risco e os fatores de proteção.

Segundo José Cleber, “os fatores de risco são, por exemplo, o homem que é alcoólatra, separado ou tem histórico familiar de suicídio e já tentou se matar uma vez tomando uma caixa de remédios.” Ou seja, essa pessoa tem um alto potencial. Então é preciso buscar os fatores de proteção. “O profissional tenta descobrir se ele tem família, religião, projetos de vida… Isso tudo contribui para ajudar a evitar o ato concreto”.

Tratamentos indicados

Como já discorrido anteriormente, cada pessoa que pensa em se matar possui um histórico, uma dor e uma razão. Por isso, os tratamentos variam de acordo com o enfermo. O mais importante, é claro, é que esse cidadão tenha acesso a um profissional. Afinal, só depois de dada a voz a ele é que chegarão, paciente e psiquiatra, à melhor solução.

A psicóloga Lisiane Steagall-Condé conta que é raro quem chega em seu consultório já falando que vai cometer um ato de suicídio. “Eticamente, quando recebemos esse tipo de caso, somos obrigados a falar com a família, afinal, se uma pessoa está declarando de forma tão lavada, ela precisa de contenção”, explica.

Essa contenção pode vir de três diferentes formas, segundo ela. “Em alguns casos é apenas o controle familiar, no sentido de ter alguém por perto, não deixar nada perigoso próximo. Outras vezes é a medicamentosa, aí entra o psiquiatra com uso de medicamentos para fazer essa tensão interna diminuir. E, em casos mais raros, como o de transtorno, é necessário o internamento para que ela não cometa o ato”, finaliza.

About the author /


Extra

Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Newsletter

ASSINE O EXTRA