Relacionamentos abusivos: A violência vai muito além da agressão física

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Diferente do que se imagina, a mulher não precisa ser agredida fisicamente para estar em uma relação violenta

A agressão física não é a única forma de violência contra a mulher existente. Ela pode se dar também por meio de ofensas, pressão psicológica, intimidação, injúria e ameaças verbais, dentre outros tipos de abusos morais. A situação é muito mais comum do que se imagina, já que, muitas vezes, ela é vista como um comportamento aceitável e até mesmo esperado.

Muitas mulheres sofrem violência dentro do seu relacionamento, seja ele namoro ou casamento.  Um exemplo desse tipo de agressão foi a última edição do programa “Big Brother Brasil”, que levantou a questão da violência psicológica e do relacionamento abusivo com o casal Marcos e Emilly. O médico acabou eliminado do programa depois dos dois terem protagonizado diversas brigas, a mais chocante aconteceu no final de uma festa, quando Marcos encurralou a moça em um canto da sala e colocou o dedo na cara dela enquanto gritava.

De acordo com a psicóloga social comunitária do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), Carine Suder Fernandes, “a principal característica de um relacionamento abusivo é a desigualdade nas relações de poder entre as pessoas do par afetivo-sexual, ou seja, as decisões quase sempre são elaboradas e executadas pela mesma pessoa”. Por alguns fatores sociais, entende-se que haja uma maior tendência de o homem ser o que subjuga a mulher, mas pode ocorrer o inverso (o que é bastante raro), como também entre casais homossexuais.

Segundo Carine, a partir dessa base, que é sustentada pelos valores e crenças produzidos e veiculados em nossa sociedade, cuja estrutura é patriarcal, sexista e machista, se produzem outras formas de violência psicológica, algumas delas são:

Ciúme possessivo: o abusador tem ciúme de todos, mesmo de amigos e parentes, e afasta a vítima das amizades e mesmo de familiares.

Desqualificação: toda e qualquer ação da vítima está ruim e/ou abaixo dos padrões de qualidade estabelecido pela outra parte.

Comportamento controlador: Controle da rotina, dos gastos, compromissos, monitorando a outra pessoa todo o tempo. Controle também da sexualidade, muitas vezes incluindo acusações de infidelidade e adultério; proibições diversas, desde contatos telefônicos e encontros com amigos e familiares até a escolha de roupas e maquiagem, podendo gerar o isolamento social e, em casos extremos, o cárcere privado.

Manipulação emocional: Simulação de frustração, raiva ou tristeza para provocar culpa e vergonha na outra pessoa por algo que não fez ou por algo que não seja culposo ou vergonhoso.

Manipulação cognitiva: (também conhecido como gasligthting)  distorções dos relatos sobre uma dada situação, manipulando a memórias e os significados para desacreditar a versão da pessoa em situação de violência.

 

Ciclo abusivo

É muito difícil para a maioria das mulheres perceberem que estão um relacionamento abusivo. Mais difícil ainda é entender como sair de um. Alguns pensamentos, como “relação é assim mesmo”, “eu vou mudar o outro”, “tenho minha parcela de culpa”, entre outros, contribuem com a permanência nesse ciclo abusivo.

Conforme a psicóloga, a naturalização a naturalização e a banalização da violência contra a mulher, que vemos em nosso cotidiano são os principais fatores para a manutenção do ciclo abusivo. “Soma-se a isso a apropriação e interiorização de valores e crenças presentes em nossa sociedade sexista, machista e patriarcal que diminuem a importância da mulher, fazendo com que muitas cresçam acreditando que para serem felizes e completas precisam estar com alguém a qualquer custo” enfatiza a profissional.

Procure ajuda

De acordo com Carine, a principal maneira de sair de uma relação abusiva é se fortalecendo. “É preciso aprender a amar-se e a cuidar-se. Entender que você não precisa estar com alguém para sentir-se inteira, feliz. Dessa forma, caso o relacionamento se desenvolva com características de violência, é possível pontuar isso com o parceiro/a parceira e observar se ele/ela reconhece e realmente passa agir de forma diferente”, explica.

Em casos em que o abuso se entende a muitos meses ou anos, é preciso procurar procure ajuda, imediatamente. “Existem serviços que contam com equipe qualificada para lhe ouvir e oferecer o suporte necessário para se fortalecer e fazer as escolhas em prol de seu bem-estar, segurança e saúde, tais como a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres e o CREAS”, alerta a psicóloga.

 

Palavras de quem sofreu

Yohanna, 22 anos*

Foto: Redação

Eu casei muito cedo, aos 16 anos tinha engravidado do pai do meu filho, meu agressor. Desde o começo, já não foi só a violência física, foi a psicológica, sempre me falando coisas e brigando sem motivo. Eu estava no 2º ano do ensino médio, então, deixava o meu filho em casa com a minha sogra e ia para a escola. Ele me seguia até onde eu estudava, todos os dias.

Em uma noite, eu já tinha feito uns três trabalhos para um grupo de meninos da minha sala. Meu marido tinha chegado em casa e eu estava na mesa terminando de fazer os trabalhos, ele passou do lado da mesa em que eu estava e cuspiu em tudo o que eu tinha feito. Então, peguei e tentei limpar. Novamente, ele se aproximou de onde eu estava, pegou as folhas, amassou e jogou fora. Eu só fui deitar, chorando, quieta, aí ele me deu um monte de tapa na cara e me chutou.

Teve outras vezes que ele saiu final de semana, chegou bêbado em casa, sempre fazendo ameaças e querendo bater em tudo. Fazia ameaças de que iria me matar. Meu filho presenciava essas atitudes, sempre acordava de madrugada, chorando, me abraçando. Ele não me deixava nem ver minhas melhores amigas, sabe aquela amiga de infância, que você confia pra tudo? Então, eu não podia ver.

Hoje não estou mais com ele, mas não o denunciei, eu não sei se vale a pena, eu não sabia se teria proteção mesmo. E eu sempre vou ter que ter contato com ele, ele é pai do meu filho. No final disso tudo, a gente tem que ser amar, ter muito amor próprio, pra não achar que não vai viver sem o cara. Se você ver que o relacionamento não está dando certo, você tem que descartar a possibilidade de ficar junto, achar que vai mudar, porque nunca muda. Procurar ajuda e nunca guardar para si mesma, porque é pior.

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

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