Município protege mulheres em situação de violência

 

 

Marli (o nome é fictício), de 24 anos, era uma anônima moradora do bairro Jordão até o mês de abril passado. Era, porque há alguns dias decidiu queria terminar o relacionamento com seu namorado porque estava se sentindo humilhada pela forma com que ele a tratava. Não esperou muito. No terminal de ônibus de Guarapuava, pediu a ele a aliança de compromisso de volta, porque não tinha mais intenção de manter aquele relacionamento.

Naquele momento Marli saiu do anonimato. Virou notícia de jornal, rádio e televisão. Porquê? O namorado, inconformado, a agrediu violentamente, ignorando que ela estava grávida.

Marli é apenas mais um nome nas estatísticas da violência à mulher. Preocupado com essa situação, a Prefeitura de Guarapuava criou a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres. E desde o começo dos trabalhos o número de atendimentos vem crescendo, segundo conta a secretária em exercício, a Assistente Social Adriele Inácio. Ela substitui no cargo a prefeita em exercício, Eva Schran, titular do cargo.

Guarapuava ocupa um lugar expressivo entre os 399 municípios do Paraná, quando se trata de discutir a violência contra a mulher. Está lá em 96.º lugar em número de femicídios (assassinato de mulheres). No ano passado, essa triste estatística computava um total de 13 mortes. E o maior responsável é o companheiro (marido, namorado, amante) em 90% dos casos. Os outros 10% estão divididos entre irmão, pai,tio, etc.

Sair do subterrâneo do medo e da vergonha para a luz da denúncia ainda é o grande problema para as mulheres agredidas. Não só em Guarapuava. Segregada a um segundo ou terceiro plano em sociedades dominadas pelo patriarcado, a mulher é sempre colocada em papel de submissão e, pior, a maioria acaba se adaptando a essa situação.

Engano pensar que essa violência ocorre apenas em classes menos favorecidas, colocadas a partir do “C” do alfabeto português. Quem está no começo da lista – as classes A e B – também passa pelos mesmos problemas, em menor quantidade é verdade. Daí é fácil concluir que não apenas a questão cultural impera neste universo, mas a questão financeira também tem seu papel, na maioria das vezes preponderante.

“A dependência financeira da mulher é um dos motivos do silêncio e do medo em denunciar as agressões, físicas ou intelectuais”, diz a secretária. Para ela, quando a agressão física se torna evidente é porque a agressão moral já se arrasta por um bom tempo.

Durante todo o ano passado, seiscentas pessoas passaram pelo balcão da secretaria. O número é expressivo, principalmente se forem levados em consideração os danos causados também a quem está por perto. Normalmente o problema afeta filhos, irmãos, pais, parentes e até vizinhos. “Sabe-se que para cada caso de violência contra a mulher, outras oito pessoas são impactadas, direta ou indiretamente”, informa Adriele.

A intenção da secretaria é – por incrível que possa parecer – aumentar esse número de atendimentos. “Enquanto outras questões de saúde buscam reduzir seus índices, nós queremos aumentar, não porque está crescendo a violência contra a mulher em Guarapuava, mas porque aquelas que sofrem agressões estão criando coragem para denunciar seus agressores”, diz a Secretária em exercício.

Para dar essa atenção à mulher a Secretaria tem uma equipe multidisciplinar, formada por assistente social, advogado e psicólogo. Porém, ao receber uma denúncia uma verdadeira corrente começa a se mobilizar para prestar o atendimento. Essa rede de apoio e proteção inclui as polícias civil e militar, hospitais, psicólogos, Ministério Público, varas de Trabalho e de Família, Cras (Centro de Referência da Assistência Social) Creas (Centro de ReferênciaEspecializado em Assistência Social), IML (Instituto Médico Legal), secretarias de Saúde e Educação, creches e Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

 

Casa de abrigo

 

Desde março passado Guarapuava é sede de uma casa de apoio à mulher em situação de violência. Os recursos foram repassados pelo Governo Federal para as obras necessárias (a casa não pode ser própria, precisa ser alugada, para ser transferida a cada dois anos) e os trabalhos estão sendo executados. A Secretaria não divulga o número de pessoas que estão sendo atendidas.

 

 

De vítima a culpada

 Adriele conta a história de uma mulher que chegou ao hospital com duas fraturas na mandíbula e várias escoriações pelo corpo. Tinha sido agredida violentamente pelo seu companheiro.

Questionada pela irmã sobre o quê havia provocado a agressão, a mulher explicou que apenas tinha perguntado ao companheiro porque havia comido o chocolate da filha.

– Sem mais nem menos ele começou a me agredir. Me bateu e chutou mesmo quando já estava caída. Não consigo entender porquê tanta violência, por causa de uma simples pergunta, disse ela.

A irmã, em sua santa inocência, sem se dar conta do que estava fazendo, foi incisiva e direta:

– Porque você reclamou dele ter comido o chocolate? Devia ter ficado quieta!

Esse comportamento mostra o quanto o poder masculino está arraigado no subconsciente da mulher, em todas as classes sociais.

Cursos de formação profissional

Uma das alternativas para contornar o problema da violência contra a mulher está na formação profissional. A Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres tem convênio com entidades como Senai e Senac, do Sistema “S” e oferece cursos como de artesanato e panificação.

“Entendemos que a independência financeira é o primeiro passo para que a mulher em situação de violência possa tomar a iniciativa de denunciar os maus tratos”, diz Adriele.

 

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