Mulheres da vida: Ser prostituta seria uma questão de escolha?

 

Foto: Divulgação

O debate da prostituição em Guarapuava está entre o estigma e as oportunidades

Reportagem especial: Beatriz Pimentel

Nesta edição, a nossa central de jornalismo apresenta uma série de reportagens exclusiva sobre o submundo da prostituição guarapuavana, onde a crise econômica afetou diretamente levando muitas das profissionais do sexo avaliarem seu modo de vida. A nossa reportagem ouviu relatos do preconceito, discriminação e a violência enfrentada no trabalho diário, nas ruas, avenidas, boates, casas de prostibulo e motéis da cidade.

No sentido de preservar nossas fontes jornalísticas e a identidade das pessoas entrevistadas, nesta matéria utilizamos nomes fictícios. Um dos relatos é da dona de casa, Mirian. S. O, de 37 anos, que está desempregada (sem registro em carteira) há cerca de dois. Ela disse que toda semana entrega currículos nas empresas e comércios, mas até agora ninguém lhe deu uma oportunidade de trabalho. “Até parece que temos um selo de prostituta na testa. Tenho dois filhos, sou separada do marido e a prostituição infelizmente tem sido a única forma de sustentar minha família. Gostaria muito de sair desta vida, não aguento mais a violência, o preconceito e discriminação”, lamenta a dona de casa.

Guarapuava ocupa atualmente a 373ª posição dos municípios brasileiros com maior índice de feminicídio, segundo dados do Mapa da Violência de 2015. No Estado do Paraná, a média era de 15,1 homicídios por 100 mil mulheres, nesse sentido muitas trabalhadoras sexuais se deparam com algumas situações, como não pagamento do cliente, roubo, agressões, xingamentos, ameaças, preconceito e a não inserção no mercado de trabalho.

Tatiane L. de 25 anos, teve início na prostituição na avenida Manoel Ribas, em Guarapuava. Na entrevista ela nos conta que precisava de um dinheiro que chegasse em suas mãos de forma rápida e por isso decidiu se prostituir. Um dos seus sonhos já se tornou realidade, a de ser mãe, outro era casar na igreja de véu e grinalda, e ser médica, graduação que considera difícil, mas não impossível. “Eu nunca vou desistir, o governo está investindo no Hospital Regional e na saúde, então espero que com isso venha os cursos nas universidades públicas e que eu possa estar ingressando”, frisou.

A entrevistada comentou que nos três anos nesta profissão, trabalhando na rua e em boates, este certamente é o momento mais difícil devido à crise econômica. “O mercado de relações sexuais passa por um momento de desvalorização, os clientes preferem acompanhantes de luxo,  mulheres e travestis que conseguem manter a boa forma, onde eles imaginam as modelos e mulheres famosas. Eu não os julgo, porque o cliente com dinheiro vai querer uma mulher bem arrumada e perfumadas para curtir seus momentos íntimos e de fantasias”, argumentou. Questionada sobre a segurança das mulheres, nos atos dos programas, a jovem relata uma situação que lhe aconteceu, onde o cliente além de não ter pago a deixou na estrada nua e sem dinheiro. “A maioria dos homens que nos procuram são casados, tem uma família. Eu falo para as colegas, que se puderem sair dessa profissão, saiam, porque como é um dinheiro que vem fácil, acaba muito rápido. Ganhamos para sobreviver e não para ter uma vida boa, como as pessoas pensam”, afirmou.

Só quem passa, sabe

O ato de se prostituir segundo o dicionário Aurélio de Português significa “atividade de quem obtém lucro através da oferta de serviços sexuais”, e é isso mesmo, a prostituição no Brasil é reconhecida como uma ocupação profissional pelo Ministério do Trabalho desde 2002.

No entanto, o artigo 230 do Código Penal delimita como crime aquele que se beneficiar do trabalho sexual em lugares privados tendo como pena de 1 a 4 anos. Yuri Machado, de 24 anos é homossexual e iniciou na prostituição com 20 anos de idade em Guarapuava. Ele também já trabalhou em Curitiba, onde fazia programas, se prostituindo com homens e mulheres. “Comecei me envolvendo com um cara que trabalhava em uma boate aqui de Guarapuava, na minha cabeça sempre passou em ser alguma coisa fácil, e quando eu precisei foi a única maneira que eu encontrei para me manter, pois não encontrava emprego na cidade”, relata Yuri. Ele conta que no início, só saía com um empresário do ramo de computação. “Ele me ajudava, desde então eu comecei a conhecer outros caras, foram ficando interessados, e eu resolvi unir o útil ao agradável”, diz ele.

O uso do preservativo é essencial nas relações sexuais, porém, não são todos que concordam em utilizá-la. Yuri nos conta que muitos clientes rejeitam o uso da camisinha. “Já aconteceu de tentarem não usar camisinha, mas aí a gente se impõe, fala que não é não segue o programa. A escolha é dele se vai fazer ou não, eu argumentava que não iria morrer por causa de R$ 100, eles acabam cedendo. Alguns até ofereciam dinheiro a mais para não usar”, contou.

A travesti Jadiely Campos, de 22 anos é natural de Laranjeiras do Sul, está em Guarapuava há três anos, e trabalha a noite na avenida Manoel Ribas. Dependendo do dia e do cliente, ela chega a ganhar R$ 700. Por necessidade financeira, acabou entrando para prostituição para cuidar de sua mãe, que não tinha condições para trabalhar. Seu maior sonho é ter uma vida financeira estável, conseguir se formar em Medicina Veterinária, ter casa própria e um carro. Ela nos conta que gasta em torno de mil a R$1,5 mil reais por mês para comprar produtos de beleza, roupas e maquiagens para trabalhar, tirando a conta de luz, água e aluguel do local em que mora junto com a mãe. “Eu banco todas as despesas da minha mãe, meus outros irmãos não fazem isso. Não estou nesta vida pelo fato de ser travesti, é um trabalho, se eu for em uma loja me candidatar a uma vaga, sou rejeitada e discriminada por ser quem eu sou”, lamenta Jady.

Confira na próxima edição a segunda parte deste assunto, que abre um debate sobre a prostituição em Guarapuava, o que os órgãos públicos e quais são as políticas públicas voltadas para esse público, como também uso da tecnologia no mercado do sexo.

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